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Como os pomeranos se tornaram pioneiros da agricultura orgânica

Em Santa Maria de Jetibá, agricultores se uniram para acabar com doenças e produzir alimentos de qualidade.

O ano era 1989 e um caminhão saía de Santa Maria de Jetibá passando por outros municípios com destino à Vitória, numa viagem de quase 12h buscando alimentos orgânicos e os agricultores pomeranos a cada parada. O ponto final era a garagem da casa do então prefeito da capital, Vitor Buaiz, onde 19 produtores orgânicos desembarcaram junto com os alimentos que seriam entregues aos consumidores da cidade. O ex-prefeito não lembra bem do episódio mas diz que “é possível que tenha sido assim”. Os agricultores nunca esqueceram e repetem essa história.

O episódio é marco de um processo que começa um pouco antes, em meados dos anos 80, a partir do trabalho da Igreja Luterana e sindicatos de trabalhadores rurais. O pastor Vitório Krause, já falecido, é lembrado como um dos principais articuladores. “Como circulava por muitas comunidades, ele percebeu que os agricultores estavam sendo intoxicados. Havia muitos problemas de pele”, relata Daniel Plaster, que era uma das lideranças comunitárias na época. Ele conta que o uso de agrotóxico teve início com a chegada do plantio de alho na região, quando as comunidades começaram a plantar para atender as cidades com produção de monocultivo em maior escala, usando pesticidas.

As lojas de agrotóxicos ofereciam venda de produtos e assistência técnica, mas nesses tempos não havia uso de equipamento de proteção adequado. A cidade de Santa Maria é até hoje uma das que mais possuem lojas com permissão de venda de insumos químicos no Espírito Santo, sendo que liderava a lista segundo dados de 2016. Celeiro de alimentos que segundo a prefeitura abastece cerca de 40% dos hortigranjeiros da Grande Vitória, o município é campeão de orgânicos mas também do uso de veneno nas lavouras.

Daniel e sua família estão entre os primeiros que optaram por largar o uso de agrotóxico, em 1985, e embarcar na então chamada agricultura alternativa. O conceito de orgânicos iria surgir depois e, por meio de uma articulação destes e outros camponeses e organizações é criada com sede em Santa Maria de Jetibá a Associação Chão Vivo, entidade sem fins de lucro que começa a certificar as propriedades. Hoje transformado em Instituto Chão Vivo, a organização se encontra sediada em Santa Teresa e facilitou o processo e os custos de certificação no Espírito Santo. Convênios com o Sebrae ainda garantem subsídios de até 90% no valor da certificação para agricultores familiares.

Retomando ao início do processo, a organização dos agricultores para parar de usar agrotóxicos na região do entorno de Alto Santa Maria, comunidade de Santa Maria de Jetibá, foi crescendo ao longo dos anos e em 1989 é fundada a Associação dos Produtores Santamarienses em Defesa da Vida (Apsad-Vida), com um grupo de 12 associados inicialmente.

No início a situação era difícil, pois não havia muita informação, formação nem assistência técnica relacionada com a agricultura alternativa. Foram tempos de muitos experimentos e safras perdidas, como contam os pioneiros.

A experiência dos testes e experiências feitas pelos agricultores e o apoio de entidade estaduais como a PTA-FASE (hoje APTA), o convênio com uma ong alemã e posteriormente o apoio da prefeitura municipal e do Incaper, foram garantindo melhor estruturação da produção e seleção dos cultivos aptos para a região.

O primeiro caminhão, que desembarcaria na garagem de Vitor Buaiz, foi comprado também com apoio da cooperação alemã. “Hoje nenhum deles precisa mais se amontoar junto com as mercadorias. Com muito trabalho o pessoal conseguiu adquirir seus próprios veículos para descer com seus produtos à cidade”, conta Daniel, que preside a Apsad-Vida, hoje com cerca de 60 famílias produzindo de forma orgânica.

Do pequeno espaço da garagem, no início dos anos 90 foram inseridas barracas de agricultores orgânicos na feira que acontecia no parque Tancredão em Vitória. “Acompanhamos a evolução desse processo desde o início, fomos a Santa Maria e encampamos pela Prefeitura de Vitória. A partir daquele momento as coisas evoluíram e hoje temos feiras orgânicas em todos os dias da semana”, diz Vitor Buaiz, lembrando que a população urbana tomava consciência sobre os riscos de agrotóxicos e que, vendo as feiras acontecerem, os produtores rurais também se estimulavam a mudar a forma de produção.

Nos início dos anos 2000 surge a primeira feira orgânica da capital, no Barro Vermelho. E, logo após, na Praia da Costa, em Vila Velha. Nos últimos anos, a proposta se expandiu massivamente, passou a ocupar ruas, praças e centros comerciais. A Secretaria de Estado da Agricultura registra existência de 24 feiras orgânicas e agroecológicas só na Grande Vitória, sendo, que no estado todo, somando-se as feiras agroecológicas, já são pelo menos 42 no total

Os pomeranos são presença constante nelas. A agricultora Selene Hammer Tesch considera a feira a melhor forma de contato direto e trocas entre o agricultor e o consumidor. “O povo pomerano é um povo muito conservador, que gosta de cuidar das suas coisas, que dá muito valor à família. São fechados, mas quando se conquista a confiança de um pomerano, você tem um amigo eterno”.

Ela que participou por 10 anos da Apsad-Vida, viu a necessidade de fundar outra entidade e hoje preside a Associação Amparo Familiar, que possui cerca de 90 famílias associadas, quase todas pomeranas de Alto Santa Maria e comunidades vizinhas. Os agricultores atendem a 16 feiras na região metropolitana e também em Aracruz e Ibiraçu. A mediação com o poder público, entidades e comunidades é feita pela associação, que faz a ponte entre os agricultores e as feiras, de acordo com a demanda.

Selene se orgulha de que toda sua família, de oito filhos, vive da agricultura orgânica. Ela leva a produção orgânica como um princípio ético que encontrou a partir da Igreja, onde fazia trabalho de catequese ensinando os 10 mandamentos para adolescentes. O 5º mandamento “Não Matarás”, lhe chamou atenção. “Não é simplesmente pegar a arma e matar alguém, envolve outros fatores que provocam a morte e um deles é o uso de veneno. A partir daí falei com minha família que devíamos começar outra linha de trabalho, que promovesse a vida, em que prevalecesse a vida e que fizesse defesa da vida”, relata.

Com 28 anos de experiência no ramo, hoje ela tem a maior parte de sua renda a partir da Casa de Chás que criou. A iniciativa de desidratar alimentos que eram desperdiçados para serem consumidos como chá ou outros usos lhe valeu o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios na categoria Produtora Rural em 2014. Ali em seu Sítio Hammer Tesch, em Alto Santa Maria, Selene e sua família também recebem estudantes e outros grupos que querem conhecer a propriedade e aprender mais sobre agricultura e alimentos orgânicos. Porém é preciso agendar previamente, pois o trabalho no campo exige uma rotina de planejamento, organização e disciplina.

A menos de dez minutos de caminhada do sítio de Selene, vive Daniel Plaster, que também mostra muito orgulho de sua família, que planta junto alimentos saudáveis. Sua propriedade tem cerca de 70 espécies, entre hortaliças, tubérculos, raízes e outros. Mas apela para a consciência dos consumidores que ainda buscam escolher os alimentos pela aparência. E as aparências enganam: “Quanto mais bonito, mais vai vender. Mas quanto mais bonito, mais veneno se usa”, afirma.

O lema das associações Apsad-Vida e Amparo Familiar resume o sentido dessa luta que transformou Alto Santa Maria numa comunidade em que a grande maioria das famílias aboliram o uso de agrotóxicos: “Plantar sem matar, comer sem morrer”.

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