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Águas subterrâneas: tornando o invisível visível

Neste Dia Mundial da Água (22/3), a ONU promove discussões sobre águas subterrâneas, recurso vital escondido sob o solo

 O Dia Mundial da Água (22/3) deste ano será marcado por discussões sobre as águas subterrâneas. Esse enfoque foi selecionado em consulta da ONU-Água e está alinhado com o Relatório Mundial sobre o Desenvolvimento da Água, realizado em parceria com a Unesco.

O tema escolhido foi “Águas subterrâneas: tornando o invisível visível”. O termo invisível refere-se às águas subterrâneas, recurso vital escondido sob o solo, por isso não visto nem percebido pela maioria da população.

Se, por um lado, há certo volume de água que sai das torneiras diariamente, portanto passível de ser medido; por outro, há um considerável volume consumido na produção econômica que não é contabilizado como consumo direto porque não sai das torneiras das casas: as águas invisíveis. Assim sendo, pouquíssimas pessoas fazem ideia de que sua escassez afetará sobremaneira a vida no planeta, tanto quanto a escassez das águas visíveis.

O tamanho do estrago

As águas invisíveis estão na produção daquele café para começar o dia, daquelas 20 calças jeans no armário, daquele estoque de chocolates na despensa, daquele smartphone recém-comprado e recém-trocado, daquela picanha do fim de semana, daquele remédio para o estômago e de boa parte do que consumimos diariamente.

Para termos uma noção do estrago, tomar um banho por dois minutos com o chuveiro elétrico parcialmente aberto consome, em média, 12 litros de água; lavar a louça com a torneira ligada durante quatro minutos gasta 55 litros e lavar cinco quilos de roupa em máquina, 135 litros de água (uma média de 19 litros diários).

Já a produção de um quilo de chocolate gasta mais de 17 mil litros de água; de uma camisa de algodão (aproximadamente 250 gramas), quase 2,5 mil litros e a de um ovo de 60 gramas, 196 litros. Todos esses dados multiplicados pela quantidade produzida e comprada anualmente são simplesmente assustadores.

Não basta desligar a torneira

O volume de consumo e a escassez das águas subterrâneas crescem na mesma velocidade. Não é inútil lembrar que a água é um recurso natural renovável, entretanto as interferências humanas em seu ciclo natural têm contribuído para sua escassez.

Se você é daquelas pessoas que desligam a torneira ao escovar os dentes e tomar banho, juntam roupa para lavar uma maior quantidade em menos vezes na semana, separam corretamente o lixo, têm tomado menos café e resistido à obsolescência programada, continue com esses hábitos sustentáveis.

No entanto, as ameaças à água vão muito além do excessivo consumo individual. A catástrofe climática, o agronegócio e o crescimento demográfico são alguns dos perigos reais para a disponibilidade de água, em especial as águas invisíveis.

Catástrofe climática

Em princípio, um planeta com 70% da superfície coberta por água poderia ser visto como o paraíso das águas. No entanto, menos de 3% dessa água é potável e apenas 0,5% é adequada para consumo. Ainda assim, estamos destruindo esse pequeno volume de um recurso vital muito mais rápido do que a natureza possa se regenerar.

A catástrofe climática em curso engloba uma série de elementos interligados – tais como poluição, desmatamento, desperdício, consumismo, entre outros – que colaboram para a escassez dos recursos hídricos com severos impactos em todos os setores da sociedade.

Riscos ambientais locais e globais como inundações e deslizamentos, cada vez mais intensos e frequentes, comprovam a catástrofe. O aquecimento global acelera o derretimento de neve, ameaçando a disponibilidade de água para a agricultura, e os riscos de enchentes com o aumento do nível do mar – nesse ritmo, muitas cidades costeiras e ilhas estão fadadas a desaparecer.

Ainda assim, os países industrializados continuam arriscando a vida do/no planeta ao manter acordos comerciais e ambientais que não possibilitam a diminuição da temperatura até o limite seguro estabelecido pelos cientistas: 1,5 °C.

Além da exploração predatória de recursos naturais, do consumismo, do incorreto descarte de resíduos, da alta produção industrial, da poluição de rios, lagos e mares, o agronegócio tem um papel crucial nessa devastação.

Agronegócio

Dados da ONU para a alimentação e a agricultura mostram que 70% de toda a água consumida no mundo vai para o agronegócio, configurando-se como o setor que mais consome esse recurso no planeta. No Brasil, esse valor sobe para 72%. O consumo doméstico mundial de água não ultrapassa os 8%. Isso se considerada apenas a água visível.

Quando se consideram as águas invisíveis, o consumo no agronegócio é de 67%. Só para exemplificar, a produção de um quilo de carne bovina utiliza mais de 15 mil litros de água e de um quilo de soja, quase dois mil litros.

Outro grande vilão no consumo de águas invisíveis tem sido o aumento da população mundial, que, de um lado, provoca grande pressão nos sistemas hídricos e consequente escassez e, de outro, falta de acesso à água.

Crescimento populacional

Desde a década de 1980, o consumo da água vem subindo cerca de 1% ao ano. O crescimento populacional e urbano tem aumentado a demanda por abastecimento e saneamento. Embora seja um recurso livre na natureza, a infraestrutura necessária para fornecer água é cara.

Segundo a ONU-Água, em 2015, mais de 800 mil pessoas não tinham serviço básico de fornecimento de água potável e 29% da população mundial não tinham acesso a um sistema de fornecimento seguro. Atualmente, mais de dois bilhões de pessoas vivem em locais em que a quantidade e a capacidade de oferta de água são insuficientes.

Projeções da ONU mostram que, até 2030, a população mundial seja de cerca de 8,5 bilhões de pessoas e, até 2050, de quase dez bilhões. Se o atual estilo de vida capitalista continuar no mesmo ritmo, serão necessários recursos equivalentes a quase três planetas Terra para sustentá-lo.

Repensar o sistema econômico

Está claro que é necessário não só mudar hábitos diários de consumo de água em casa, mas também ficar de olho nos dados de exploração e uso das águas subterrâneas para cobrar medidas das autoridades. Para isso, é preciso rever nosso modelo de produção e de consumo – será que necessitamos de tudo o que é produzido e será que compramos para suprir necessidades reais?

Enquanto boa parte da população mundial não tiver acesso a essas informações e reflexões, que podem realmente conduzir as sociedades a um caminho de retração da industrialização e do consumo desenfreado, e o colapso ambiental não retroceder, as águas subterrâneas continuarão severamente ameaçadas.

E, a cada dia, fica mais evidente que frear a destruição do planeta é uma responsabilidade tanto de indivíduos quanto de instituições. Se as campanhas para o uso sustentável da água visível ainda têm baixa adesão, quando se trata da água invisível, aquela que corre sob o solo e não entra na contabilização de gastos humanos diários, essa adesão praticamente não existe.

Nesse sentido, da campanha da ONU-Água deste ano poderão sair acordos importantes para direcionar políticas públicas de proteção ambiental, de incentivo à mudança de hábitos de consumo e de equidade de conservação, produção e distribuição de água potável.

Por Caroline Cardoso – Comunicação FVHD

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