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Estudos Amazônicos: alta procura por curso inédito da UnB traz esperança

Tem muita gente se preocupando, sim, com o futuro de nossas florestas, para muito além do Dia de Proteção às Florestas, e a Fundação Verde foi ouvir algumas dessas pessoas
Por Caroline Cardoso

Em apenas 13 dias, cerca de 800 pessoas se inscreveram para o Curso de Especialização em Estudos Amazônicos, da Universidade de Brasília (UnB). O edital que rege o processo seletivo estabelece um limite de análise das 300 primeiras inscrições para preencher 30 vagas, das quais 14 são para negros, indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas e pessoas com deficiência, e 16 para ampla concorrência.
Ou seja, a seleção vai dar certo trabalho para a equipe do Núcleo de Estudos Amazônicos do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (NEAz/Ceam), responsável pela especialização, mas deixa uma esperança no ar: tem muita gente interessada em estudar a Amazônia.

O historiador Kelerson Semerene Costa, coordenador do curso, conta que a procura surpreendeu. Sobre o tema a ser ministrado, ele coloca logo o dedo na ferida. Isso porque a destruição das florestas brasileiras, é, digamos, um legado negativo da colonização.

Segundo ele, registros realizados desde o início da invasão do país pelos europeus mostram que a Mata Atlântica foi a que mais sofreu devastação nos primeiros anos do século 16, com as políticas de exploração do pau-brasil, de produção de cana-de-açúcar, de pecuária e mineração.

“José Bonifácio de Andrada e Silva já dizia, por volta de 1820, que nossas florestas estavam sendo tão destruídas que, em 200 anos, estariam semelhantes ao deserto da Líbia.”
Kelerson Semerene Costa, historiador

Costa conta que, devido ao difícil acesso à Amazônia brasileira, a área ficou relativamente preservada pelo menos até metade do século 17, quando foi fundada a cidade de Belém, no Pará, em janeiro de 1616, com uma ocupação basicamente ribeirinha ao longo do rio Amazonas e de alguns de seus principais afluentes até onde eram navegáveis.

Quem participar do curso terá a oportunidade de aprender e aprimorar seus conhecimentos sobre esses e outros temas com um corpo docente composto por 28 professores de diferentes formações e experiências. Por seu caráter multidisciplinar, o requisito mínimo para se inscrever é ter graduação em qualquer área.

As inscrições se encerram no dia 31 de julho e o curso é presencial, com uma carga horária de 390 horas distribuídas em três trimestres. Porém, devido à pandemia, será adotado o formato remoto até que a universidade estabeleça o retorno seguro ao campus.

Angariando “simpatias para a causa amazônica”

A alta procura pelo curso é um indicador de que existe muita gente preocupada com o futuro da floresta – para muito além do dia 17 de julho, data em que se celebram as ações de proteção às florestas brasileiras. E esse interesse é mais do que necessário e urgente. O Brasil tem a segunda maior área de florestas do mundo, cerca de 60% do seu território, o que corresponde a 500 milhões de hectares. Segundo o Serviço Florestal Brasileiro – com base em pesquisas do IBGE – 97% dessa área são florestas naturais e 51% – ou 255 milhões de hectares – são destinados a unidades de conservação públicas. 

E toda essa riqueza florestal está sob constante ameaça. Somos o país que mais desmata. Apesar de ainda termos uma grande área florestal nativa, nos últimos 30 anos, ela sofreu uma diminuição de 70 milhões de hectares, duas vezes a área da Alemanha, segundo o MapBiomas Brasil

O NEAz foi criado no final dos anos 1980, exatamente durante a fase denominada de “década da destruição”. O objetivo foi congregar comunidade acadêmica, instituições públicas, organizações e movimentos sociais para estudar, pesquisar e debater temas relacionados à Amazônia: “[nesse período], ela passava por um dos momentos mais críticos e a gente procurava, então, angariar simpatias para a causa amazônica pela difusão de conhecimentos nessa área”, explica Kelerson Costa. 

Gente que faz muita diferença
A bióloga Joseane de Araújo Almeida – moradora da Comunidade Vista Alegre II do entorno da Floresta Nacional de Palmares, em Altos, Piauí – conta que a causa ambiental despertada pelo trabalho como condutora de visitantes na Flona Palmares no final da adolescência, em 2009, também a levou ao curso de Biologia na Universidade Estadual do Piauí em 2011. 

Hoje, Joseane cursa o mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente na Universidade Federal do Piauí e realiza pesquisa na floresta que a despertou: “Pesquiso a diversidade de um tipo de fungo aquático que temos na água acumulada em cavidades de troncos de árvores da floresta para entender a dinâmica de funcionamento desses fungos durante a estação seca”.

Enquanto isso, na Reserva Extrativista do Rio Cajari, que fica no município de Mazagão, no Amapá, a população tradicional faz a exploração sustentável de recursos naturais renováveis e extrai seu sustento basicamente do açaí e da castanha-do-brasil, conservando a biodiversidade e protegendo os meios de vida e a cultura do local.

“Aqui na minha comunidade sou a única pessoa que está cursando uma graduação. Eu e minha irmã fizemos o curso superior. A pós-graduação me traz esperança de que eu consiga atuar em uma profissão da minha área de formação aqui na minha comunidade.”
Joseane de Araújo Almeida, bióloga que desenvolve pesquisa de mestrado na Flona Palmares – Piauí

Gessica Souza da Costa – membro do conselho deliberativo da Reserva Extrativista do Rio Cajari (Resex), coordenada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e assessora técnica da Associação de Moradores Agroextrativistas do Rio Cajari, a primeira associação criada na Resex, em 1990 – afirma que as parcerias entre as diversas associações da região e instituições governamentais e não governamentais são de fundamental importância para a preservação das florestas.

Essas parcerias envolvem apoio financeiro a projetos, cursos e formações específicas, qualificação e certificação da produção, acordos de preservação, o que, segundo a assessora técnica, tem trazido cada vez mais benefícios para os produtores da região. 

“Claro que existe desmatamento em alguns locais, mas ainda temos a maior parte preservada. Para a comunidade do Mazagão, a floresta hoje é de suma importância, pois é através dela que tiramos o sustento de muitas e muitas famílias. A comunidade já tem a consciência de que preservando se tem mais e sempre. Então, se não preservar, vai acabar. Se acabar, não tem de onde tirar o sustento”, pondera Gessica. 

Povos ameaçados
Foi uma terra assim, de onde não se podia mais tirar nem o sustento, que Daniel Iberê, indígena do grupo M’bya-Guarani, encontrou em 1996, quando, aos 10 anos, ele e sua família chegaram ao Acre caminhando, vindos da região Sul do país.

Hoje aluno de doutorado em Antropologia na UnB, Daniel conta que, quando chegaram, a terra era adoecida. “Só tinha capim, o resto do que o fazendeiro já não queria mais. Então, ele vendia para o Incra para fazer assentamentos. E foi ali que a gente começou a curar a terra, a nossa grande mãe. A gente plantou tudo que era diverso. Toda árvore que existe ali foi plantada por mãos indígenas com a ajuda de todos os outros seres que foram se juntando à gente.”

“[Quando estamos nas universidades] toda indignação vai sendo filtrada pelos padrões, pelas normas da ABNT. Muito se filtra. Há que se fazer um texto científico e não panfletário. Por mais que, enquanto você escreve, seus parentes estejam sendo massacrados, assassinados. Entraram os nossos corpos nas universidades. Quando os nossos saberes entrarem nas universidades, elas serão diferentes.”
Daniel Iberê, indígena do povo M’bya-Guarani

Essa história não começou nem parou ali. Foi muito além. Em 2020, a Amazônia perdeu 96,2 hectares a cada 60 minutos. Das 573 terras indígenas no Brasil, 297 sofreram desmatamento, um crescimento de 31% em relação a 2019, segundo o Relatório Anual de Desmatamento no Brasil 2020, da MapBiomas.

Na contramão do que deveria ser feito, foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados no final de junho deste ano o Projeto de Lei nº 490/2007, de autoria do deputado Homero Pereira (PR/MT), que ameaça a demarcação de terras indígenas no país. 

Para Kelerson, Gessica, Joseane e Daniel, todos nós – cidadãos da floresta, da cidade e do campo – podemos (e devemos!) somar esforços na luta pela preservação ambiental em nosso país. É fundamental compreendermos a real importância de conservar nossos ecossistemas – nossa existência está em jogo – e cobrar das autoridades a fiscalização, a efetiva aplicação das leis de proteção e a criação de políticas públicas que atendam as necessidades dos povos em situação de vulnerabilidade.

A Especialização em Estudos Amazônicos, todos os entrevistados para esta matéria, cada iniciativa e indivíduo são importantes para a ampliação da rede de defesa das florestas e seus povos. Que os 800 inscritos (até o dia 13 de julho) sejam 800 novas pessoas nessa luta, e que mobilizem muitos outros guardiões das florestas.

Serviço

Curso de Especialização em Estudos Amazônicos 
NEAz/CEAM/UnB
Inscrições abertas até 31 de julho
Início das aulas: 13 de setembro
Gratuito
Edital

Dicas verdes
Livros

Daniel Iberê. A serpente do capital: pilhagem, exploração e destruição cultural na América Latina (Santo Antônio e Jirau). Rio Branco: Edufac, 2015.
Warren Dean. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

Filme
A última floresta (2021), de Luiz Bolognesi

Vídeo
MapBiomas Alerta, publicado em 13 de junho de 2019

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