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Julho sem Plástico: prontos para o desafio?

Movimento já inspirou milhões de pessoas em 177 países e provocou redução de resíduos gerados individualmente

Há exatos dez anos surgia o movimento Plastic Free July® (Julho sem Plástico) na Austrália. Uma equipe do Earth Carers Waste Education queria diminuir o uso cotidiano do plástico. O movimento cresceu e virou uma ONG que produz e disponibiliza informações sobre meio ambiente, geração e descarte de resíduos de forma a conscientizar as pessoas sobre os problemas com o plástico. Os inscritos recebem semanalmente desafios de mudanças na rotina – para o mês de julho e sempre – e dicas sobre como viver sem plástico.

De acordo com o site, o movimento já mobilizou cerca de 326 milhões de pessoas em 177 países e reduziu em 23 kg os resíduos gerados por pessoa ao ano. O valor corresponde a 825 milhões de quilos de plástico que deixaram de ser descartados no meio ambiente.

Eu nem me lembro exatamente quando comecei, mas há muito tempo eu me preocupo com o que a gente vai deixando para trás e com a nossa responsabilidade na situação.”

Ana Maria Castro Borges, servidora pública aposentada

Adeus, plástico!

Abandonar os plásticos não é tarefa fácil. Além da necessidade de mudar hábitos arraigados e da praticidade que o plástico traz para o cotidiano de todos nós, há outros obstáculos: o local e o tipo de moradia, os custos de produtos alternativos, a falta de políticas públicas, de apoio governamental e de campanhas e as taxações. Mas muita gente tem conseguido.

“Quando trabalhei na Justiça do Trabalho, fizemos projetos para encaminhar todo o material reciclado para catadores e substituímos os copos plásticos por copos de material durável”, conta Ana Maria Castro Borges, servidora pública aposentada, adepta da compostagem e do sistema de agroflorestas em sua chácara.

Ela lia sobre a contaminação do plástico e via que não adiantava usar o biodegradável, porque ele só fazia degradar mais rápido e contaminar mais rápido, e que o calor no plástico libera toxina. “Então eu comecei a mudar meus hábitos em casa também. Troquei todos os potes de plástico por vidro e inox. Quanto ao meu lixo, separo o que é reciclável do que não serve para nada e do compostável. Eu composto todo o meu lixo orgânico.”

Consumismo que assusta

Os pais da pedagoga Eliane Mendonça dos Santos, que “são da roça”, estranham muito o consumismo desenfreado. “Quando era pequenininha, minha mãe e meu pai iam à feira e eles já tinham aquela ecobag. Minha mãe é costureira e fazia uma ecobag de couro ou de outro material, um tecido bom”, relembra a pedagoga Eliane Mendonça dos Santos.

A partir de exemplos familiares, desde muito cedo Eliane tem consciência que cada um deve fazer sua parte, mas que faltam políticas públicas efetivas para enfrentar e barrar a proliferação do plástico. “Desde pequena, sempre questionei: ‘as pessoas falam tanto de consciência sobre o lixo, mas cadê a coleta seletiva?’. A gente aprendia de um jeito na escola, mas o próprio poder público, a quem cabia a coleta, não tinha essa prática.”

Enquanto isso, a indústria do plástico não para

O mercado do plástico é controlado por grandes multinacionais que investem bilhões de dólares para produzir mais. Mesmo com uma demanda muito menor que o fornecimento de plástico no mundo, segundo o Atlas do Plástico 2020 – publicação da Fundação Heinrich Böll sobre produção, consumo e reciclagem mundial de plásticos –, a indústria não para. O plano é construir mais de 300 novas instalações, ou expandir as existentes, de modo a aumentar em 40% a produção mundial do polímero até 2025, a partir da capitalização de gás xisto dos Estados Unidos.

Apenas 20 empresas são responsáveis por cerca de 55% dos resíduos plásticos gerados no mundo, revela o Plastic Waste Makers Index

Mesmo a passos lentos, parece que a organização coletiva de ações como o Julho sem Plástico tem impactado mais na diminuição da geração individual de resíduos do que na das grandes corporações. O Plastic Waste Makers Index revela que apenas 20 empresas são responsáveis por cerca de 55% dos resíduos plásticos gerados no mundo. Entre essas empresas, estão: ExxonMobil, Dow, Sinopec, Indorama Ventures, Saudi Aramco, PetroChina, LyondellBasell, Reliance Industries, Alpek S.A.B. de C.V. e Braskem. Onze delas ficam na Ásia.

Equação que não fecha

Ações como as de Ana Maria e Eliane são muito importantes para mitigar os efeitos do plástico na vida do planeta. Entretanto, temos uma equação que não fecha.

Do ponto de vista global, os maiores produtores de resíduos plásticos não estão retrocedendo nem repensando sua produção com base em outras tecnologias e em pesquisas para inovações sustentáveis. Sobra uma enorme responsabilidade nos ombros da pessoa física – do cidadão, individualmente falando.

Um terceiro elemento dessa equação, os governos, tem demonstrado preocupação concreta com os graves problemas, inclusive econômicos, para todos os habitantes do planeta caso as evidências do colapso ambiental sejam desconsideradas. Vide lei que proíbe plásticos descartáveis na União Europeia. No Brasil, o Projeto de Lei 4.186/2020, de autoria do deputado federal Deuzinho Filho (Republicanos-CE), visa proibir a fabricação, a comercialização e o uso de produtos plásticos de uso único no país, mas encontra-se parado desde março de 2021 na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara.

Mundo de plástico

O polímero sintético conhecido como plástico tem cerca de cem anos. Seu uso e sua produção só vêm acelerando, com mais da metade sendo fabricada depois de 2005. São inúmeras as facilidades que o plástico trouxe à vida moderna. Ele está em tudo – de um simples delivery, passando por roupas e calçados, a peças de carros e computadores.

“Nós temos plásticos potencialmente recicláveis. E tem um mercado muito importante da reciclagem. Um exemplo é o PET. E temos plásticos que não têm este potencial, seja porque foram contaminados ou porque não têm essa característica [ser reciclável]. Justamente por isso acabam descartados de maneira inadequada. Esses plásticos seriam rejeitos. Um exemplo seria o plástico filme”, explica Carlos Silva Filho, presidente da Associação Brasileiras das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), representante da International Solid Wast Association (ISWA) no Brasil.

Entretanto, muitos desses plásticos se tornam resíduos e, em especial os de uso único, rejeitos, que se acumulam no ambiente e contaminam tudo. Ele afeta o planeta em todos os níveis. Os riscos iminentes de um colapso ambiental nos convidam a agir. Cada cidadão que consegue minimizar o consumo e maximizar escolhas alternativas ao plástico está contribuindo para a continuidade da vida na Terra.

“O maior problema dos plásticos é a sua durabilidade. Ele não volta ao seu estado, vamos dizer assim, natural. Então ele fica acumulado no ambiente inteiro. Ele é considerado um material recalcitrante [resistente], então você não consegue quebrar o ciclo dele. Se a gente enterrar uma garrafa plástica, por exemplo, daqui a 200, 300, 400 anos, essa garrafa vai estar no mesmo lugar”, esclarece o químico Renato Bertolino.

Coleta seletiva em crescimento no Brasil

No Brasil, a última década foi marcada pelo aumento tanto da geração total de resíduos sólidos urbanos quanto da coleta desses resíduos. Os brasileiros da zona urbana geraram 19% a mais de resíduos sólidos, saltando de 67 milhões de toneladas por ano em 2010 para 79,6 milhões de toneladas por ano em 2019. De quase 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos gerados pelos brasileiros em 2019, 35% são recicláveis secos. Destes, quase 17% são plásticos segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2020 da Abrelpe/ISWA.

De acordo com a lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos, resíduo sólido é todo o material descartado resultante de atividade humana em sociedade que tem potencial para um aproveitamento, para uma reciclagem, para uma recuperação. Rejeitos são os resíduos sólidos que já não apresentam mais este potencial e que a única opção é o encaminhamento para aterros sanitários.

Carlos Silva Filho, presidente da Abrelpe/ISWA

A Abrelpe/ISWA faz uma projeção de crescimento de 50% para 2050, o que corresponde a 120 milhões de toneladas por ano de resíduos sólidos gerados apenas pelos brasileiros da zona urbana – quantidade suficiente para dar duas voltas em torno da Terra.

Com relação à coleta, apesar do crescimento de 24% em relação a 2010 (72,7 milhões de ton/ano no total em 2019), com cobertura de 92%, ainda há um déficit de 6,3 milhões de toneladas ao ano de resíduos sem coleta que acabam abandonados em qualquer local e de qualquer jeito, poluindo solo, ar e água.

Uma notícia animadora é que também houve crescimento de municípios que realizam a coleta seletiva no país – eram 56,5% em 2010 e 73% em 2019. Ainda incipiente em muitos desses locais, sobrecarregando o sistema de destinação final e a extração de recursos naturais – muitos já próximos do esgotamento –, a coleta seletiva é uma prática cotidiana necessária que deve ser incentivada e efetivada por governos, indústrias, empresas e sociedade civil, ou seja, todos nós, cidadãos.

A Fundação Verde Herbert Daniel convida você a participar do desafio Julho sem Plástico e postar os resultados nas suas redes sociais com a #julhosemplástico. Marque a gente, vamos gostar de saber de suas ações: @fundacaoverde.

Pequenas atitudes geram grandes resultados

Reduza o uso do plástico

#julhosemplástico

Sempre que for comprar algo, pergunte-se:

Preciso mesmo disso?

Isso precisa mesmo ser embalado em um saco plástico?

Há outra opção de embalagem que não seja de plástico?

Poderei reutilizar/reciclar/reaproveitar esse produto ou essa embalagem?

Tenha um kit lixo zero

Sacola de pano (ecobag) ou de papel para compras

Canudo e talheres de metal

Copo de vidro ou de metal

Reduza o uso do plástico

#julhosemplástico

Na padaria, na farmácia, no açougue, no supermercado, no restaurante

Evite sacolas plásticas

Opte por produtos sem embalagens, a granel, orgânicos, reciclados e reaproveitados

Leve seus próprios recipientes para acondicionar suas compras

Use sacolas e sacos de tecido

Reduza o uso do plástico

#julhosemplástico

Nas baladas, festas e comemorações

Use utensílios e louças laváveis, guardanapos e toalhas de pano

Reduza o uso do plástico

#julhosemplástico

 Em casa

Separe corretamente seus resíduos

Lave todas as embalagens que podem ser recicladas

Reaproveite embalagens sempre que puder

Use composteira se possível

Evite as entregas em domicílio

Reduza o uso do plástico

#julhosemplástico

Outras dicas importantes

Substitua fraldas descartáveis por fraldas de tecido

Substitua os absorventes descartáveis por coletor menstrual, calcinha absorvente ou absorventes de tecido lavável

Manchas de sangue são facilmente removidas com água oxigenada 10 volumes

Troque o xampu e o condicionador líquidos pelas opções em barra

Reduza o uso do plástico

#julhosemplástico

 Dicas verdes para o #julhosemplástico

  1. Vídeos curtos

A brief history of plastic – TED Ed

The history of plastics – Plastics Industry Association

A brief history of how plastic has changed our world – National Geographic

Story of stuff – The story of stuff Project

  1. Livros

Plasticus maritimus: uma espécie invasora, de Ana Pêgo, Isabel Minhós Martins e Bernardo P. Carvalho (2018), Editora Planeta Tangerina

Uma vida sem lixo: guia para reduzir o desperdício na sua casa e simplificar a vida, de Cristal Muniz (2018), Editora Alaúde

  1. Documentários

Albatross – the film, de Chris Jordan (2017)

Documentário, livre e gratuito, feito ao longo de oito anos para mostrar a vida de uma ave que se reproduz nas ilhas Midway no Oceano Pacífico, o albatroz-de-laysan, e o grave impacto do lixo plástico, originário de várias partes do planeta sobre essas aves.

Plastic China, de Jiu-Liang Wang (2016)

Documentário que mostra a história de uma família que trabalha com reciclagem de plástico na China, o maior importador desse material no mundo.

Trashed, de Candida Brady (2012)

Documentário que mostra o ator inglês Jeremy Irons percorrendo vários lugares do mundo para mostrar os impactos devastadores do lixo.

Estamira, de Marcos Prado (2004)

Documentário que conta a história de Estamira, uma mulher de 63 anos que trabalhava em um aterro sanitário no Rio de Janeiro.

Por Caroline Cardoso

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