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O clima árido no jornalismo ambiental do Brasil

Falta de transparência, riscos à integridade física dos profissionais da imprensa e visão limitada dos próprios jornalistas na cobertura do tema são a realidade nacional

Alguns pontos permeiam a cobertura jornalística ambiental no país. O primeiro é a própria violência e os riscos a que os jornalistas estão submetidos. O segundo é a total falta de transparência, principalmente por parte dos órgãos do governo, que omitem dados e informações relevantes. Em terceiro lugar, e não menos importante, está a visão limitada com a qual os próprios jornalistas lidam com o tema ambiental.
“Eu entendo que existe uma confusão que já não deveria ter lugar entre nós sobre o que significa o jornalismo ambiental. Meio ambiente não é sinônimo de bichinhos e floresta, fauna e flora. Meio ambiente alude a projeto de civilização, a modelo de desenvolvimento, saúde, qualidade de vida, longevidade, à perspectiva de vivermos em um mundo melhor e, como diz minha querida amiga Eliane Brum, que a gente não transforme o Brasil em ruínas”, ressalta André Trigueiro, um dos jornalistas brasileiros mais respeitados e mais premiados na cobertura de meio ambiente no Brasil, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC-Rio, autor de vários livros, entre eles Cidades e Soluções – como construir uma sociedade sustentável (2017).

Para a jornalista Cristina Serra, autora dos livros Tragédia em Mariana: a história do maior desastre ambiental do Brasil (2018) e Uma história de conservação: a Mata Atlântica e o mico-leão-dourado (2019), além de um artigo sobre a política antiambiental do governo Bolsonaro no livro Antifascistas: contos, crônicas e poemas de resistência (2020), a cobertura de meio ambiente talvez seja uma das mais perigosas para o profissional de imprensa, pois essa é uma pauta que, inevitavelmente, envolve conflitos. “[A questão ambiental] é atravessada por muitas questões políticas, econômicas, fundiárias. Ela tem intersecções em vários pontos. Se você for ver a fundo, a origem dos grandes problemas ambientais no Brasil é a grilagem de terras, é a disputa pela terra.”

Outro ponto de destaque, segundo André Trigueiro, é a dificuldade de acesso às informações sobre o assunto e as tentativas de impedir o trabalho jornalístico. “Temos um problema grave de transparência, por vezes, temos de recorrer à Lei de Acesso à Informação para obter respostas do governo, principalmente do Ministério do Meio Ambiente, Ibama e ICMBio. Sobre questões alusivas às reportagens, existe uma tentativa de intimidação no sentido de desqualificar o papel do jornalista, de chamá-lo de militante, de tentar aplicar rótulo político-partidário e manifestar claramente desconforto com abordagens, com formas de interpretar os fatos.”

Violência e medo
A verdade é que, no Brasil, tem se tornado cada vez mais difícil exercer a profissão. Nosso país é o segundo da América Latina em número de profissionais de imprensa assassinados entre 2010 e 2020. Ele está na zona vermelha do Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa da ONG Repórteres Sem Fronteiras divulgado em abril deste ano. No entanto, em todo o mundo, não faltam casos de assassinatos, subornos, ameaças, agressões, prisões e processos injustos.

Segundo a ONG, até pouco tempo, as maiores baixas entre profissionais de mídia ocorriam em coberturas nas zonas de conflitos armados. Hoje, o volume de assassinatos e ataques a esses profissionais são maiores em coberturas de temas como direitos humanos, justiça social, corrupção e meio ambiente. Não à toa, a organização lançou o relatório Clima hostil contra jornalistas ambientais na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2015, em que já alertava para as dificuldades de jornalistas na cobertura de questões ambientais.

A situação de agressão a profissionais de mídia se agravou bastante em nosso país com a eleição do atual presidente da República, que incita apoiadores contra a imprensa, de modo geral, e contra alguns jornalistas, de forma específica. Segundo o relatório Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil, divulgado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em janeiro, 2020 foi o ano mais violento para os jornalistas brasileiros desde a década de 1990, quando a Federação iniciou esses levantamentos. Foram 428 ocorrências no ano passado contra 208 casos de violência em 2019 – um aumento de quase 106%.

“A Fenaj tomou para si a denúncia pública dos casos de violência contra jornalistas. É importante ressaltar que a denúncia pública tem duas funções. A primeira é chamar a atenção da sociedade para o problema e, com isso, conquistar seu apoio. A segunda função é que, com a denúncia pública, se começa a combater a impunidade. Ela é muito importante para que as autoridades responsáveis se sintam comprometidas e haja investigação para identificação e responsabilização dos culpados”, explica Maria José Braga, presidenta da Federação.


Fonte: Relatório 2020 – Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil, da Fenaj.

Quem são os agressores
A Fenaj elabora seu relatório com base em dados obtidos via sindicatos ou na própria Federação por meio de denúncia das vítimas, de outros profissionais de mídia e da compilação de notícias veiculadas na imprensa. Uma das variáveis analisadas é o perfil/atividade dos agressores.

Tanto em 2019 quanto em 2020, o principal autor de ataques a veículos de comunicação e a jornalistas no país foi o presidente Jair Bolsonaro. No ano passado, foram 175 ocorrências entre descredibilização da imprensa – a maioria delas –, agressões diretas a profissionais, uma ameaça à TV Globo e dois ataques à Fenaj.

Não é coincidência que a região brasileira com o maior número de violência contra jornalistas e de atentados à liberdade de imprensa em 2020 foi o Centro-Oeste, que registrou 130 casos. O Distrito Federal, sede do governo federal e do governo distrital, foi a unidade federativa campeã em números de casos, com 120 ocorrências, incluídos os 76 registros de censura na Empresa Brasil de Comunicação (EBC).


Fonte: Relatório 2020 – Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil, da Fenaj.

Na mesma linha do presidente da República, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem dificultado o trabalho da imprensa que cobre essa pauta. Segundo o Observatório do Clima, quase oito em cada dez solicitações dos repórteres ao Ministério do Meio Ambiente ficaram na gaveta nos primeiros nove meses do atual governo. O relatório Passando a boiada: o segundo ano de desmonte ambiental sob Jair Bolsonaro, publicado pelo Observatório em janeiro deste ano, aponta a intensificação da censura, da intimidação e até a espionagem a jornalistas e entidades da sociedade civil em 2020.


Fonte: Relatório 2020 – Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil, da Fenaj.

O documento cita uma reportagem publicada em outubro de 2020 no jornal O Estado de S. Paulo. Nela, o repórter Felipe Frazão revelou que o governo enviou oficiais da Agência Brasileira de Inteligência para monitorar as atividades de organizações da sociedade civil do país que participaram da Conferência do Clima de Madri em dezembro de 2019. Também em 2019, o ministro Salles desautorizou a comunicação direta entre as assessorias de imprensa do Ibama e do ICMBio e os jornalistas.

Outro ponto crítico de violação do direito à comunicação por parte do atual presidente da República é a restrição a informações sobre instituições governamentais, que devem prestar contas publicamente aos contribuintes brasileiros com a máxima transparência. Em março, o governo editou uma medida provisória suspendendo prazos de respostas via Lei de Acesso à Informação. O Supremo Tribunal Federal derrubou a decisão, mas o governo continua dificultando o exercício desse direito.

A boiada e a falta de transparência
A famosa fala do ministro Ricardo Salles na reunião ministerial de 22 de abril de 2020 resume bem o modus operandi do governo Bolsonaro em relação ao meio ambiente. “Então, pra isso [aprovação de reformas], precisa ter um esforço nosso aqui, enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de Covid, e ir passando a boiada.”

A destruição do planeta é globalmente grave, porém, no Brasil, ações governamentais têm impulsionado as catástrofes que enfrentamos. Um dos motivos é justamente a pouca visibilidade de debates e estudos sobre essa crise. O acesso do grande público a informações importantes sobre a tragédia ambiental que está batendo à nossa porta ainda é muito restrito. E essa falta de acesso também resulta na pouca reflexão sobre os problemas ambientais e na baixa adesão a mudanças comportamentais cotidianas que podem desacelerar esse processo.

O jornalista André Trigueiro classifica a atuação do governo federal nas questões ambientais, pelas quais o Brasil já foi tão respeitado, como “absolutamente desastrada” e reconhece que essa postura ambiental destrutiva é um “método” que tem provocado um desmonte das políticas ambientas construídas ao longo das últimas décadas. O jornalista enfatiza que “qualquer questionamento, qualquer crítica, qualquer denúncia do absurdo dessas medidas tem recebido por parte do governo, ou respostas muito duras, ou omissão, ou nenhuma prestação de contas”. Ao mesmo tempo, para ele, “o jornalismo é uma profissão que, se você não está incomodando ninguém, tem algo errado”.

Os jornalistas precisam ampliar a visão
A cobertura de temas ambientais extrapola os limites da tão reivindicada imparcialidade jornalística, na medida em que, diante da realidade ambiental planetária, exige cada vez mais comprometimento do jornalista com a conscientização e a mudança de hábitos em benefício do planeta. Esse comprometimento nunca foi tão necessário e importante quanto neste momento em que, além do atual cenário político brasileiro elevar os índices de destruição de ecossistemas, reservas ambientais, florestas e rios, legislações protetivas, enfrentamos uma catástrofe ecológica, epidemiológica e humanitária sem precedentes.

Cristina Serra acredita que o jornalismo ambiental precisa trazer para o foco uma questão que ainda está muito incipiente no debate público, pelo menos da grande mídia, que é o papel do sistema capitalista no processo de devastação de ecossistemas. “O Brasil até hoje é visto como fornecedor de commodities na ordem econômica mundial. Esse é o papel reservado ao Brasil. Se você quer realmente escrever sobre meio ambiente, fazer um trabalho jornalístico com profundidade, tem que ter essa visão. Se não, vai ficar arranhando a superfície.”

É papel do jornalista ser contra injustiças, tentar buscar a veracidade e, acima de qualquer coisa, contar a história de diferentes ângulos. No que se refere à defesa do meio ambiente, ainda falta uma visão sistêmica sobre o assunto nas redações dos grandes grupos midiáticos do país. O tema ainda é visto como uma editoria, mais uma especialização jornalística. Mas Trigueiro chama a atenção para a necessidade de um entendimento mais abrangente sobre o conceito de meio ambiente, pois ele diz respeito à proteção de um bem comum a todos os habitantes da Terra, à preservação da vida e das condições de sua existência, o que exige o compromisso de todos nós.