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O Japão do plástico e os jogos da sustentabilidade

O país, que é um dos principais produtores de plástico do mundo, pretende ter osJogos Olímpicos e Paraolímpicos mais sustentáveis da história

Os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio 2020, iniciados em 23 de julho, são exemplos de um bom enlace entre tecnologia, inovação e sustentabilidade – ao contrário das edições anteriores do maior evento esportivo do mundo. Todo pensado do ponto de vista da sustentabilidade muito antes da pandemia, os jogos também estão sob a influência do adiamento e da ausência de público devido à Covid-19.

O Japão investiu em uma organização inédita que inclui até o uso de materiais reciclados para a produção de medalhas e uniformes. A previsão é reutilizar ou reciclar 65% dos resíduos produzidos durante os jogos.

É fato que a ausência de espectadores nas competições diminui consideravelmente a produção de resíduos, que, em um evento dessa magnitude, pode chegar a toneladas. Ao final dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, após a passagem de cerca de 1,2 milhão de turistas pela capital fluminense – segundo a prefeitura –, a Companhia de Limpeza Urbana informou que mais de duas mil toneladas de resíduos haviam sido removidas apenas nas principais instalações e nos espaços públicos de convivência da Vila Olímpica.

Mas os organizadores da Tóquio 2020, assim como qualquer um de nós, não contavam com uma pandemia. Planejaram um evento para milhões de pessoas, sendo um dos principais objetivos a gestão responsável e sustentável dos resíduos – desde a concepção até a finalização dos jogos.

Lixeiras dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio 2020

Fonte: Olimpycs.com/Tokyo-2020.

Por essa gestão responsável de resíduos, os japoneses merecem atenção. A organização estabeleceu como práticas os 3Rs: reduzir, reutilizar e reciclar. Entre elas, destacam-se a reutilização ou reciclagem de 65% dos resíduos gerados nas operações dos jogos e de 99% de todos os bens adquiridos para os jogos; a produção de uniformes a partir de roupas recicladas, medalhas a partir de lixo eletrônico reciclado, pódios a partir de plástico reciclado, camas a partir de papelão reciclado e tocha olímpica com restos de alumínio.

Esforço conjunto para desperdício zero

Uma das regras da organização dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 é “a utilização de recursos sem qualquer desperdício em toda a cadeia de abastecimento”. Com massiva participação dos japoneses, investiu-se em confecção de uniformes e medalhas com materiais reciclados – só para citar dois exemplos.

Como mostramos em uma matéria de maio deste ano, produzir uma simples camiseta gasta 2,7 mil litros de água. Se nada mudar, em 2050 a indústria da moda consumirá um quarto do orçamento de carbono do mundo. Pensando nisso, os uniformes da delegação do Japão e dosvoluntários do evento foram produzidos a partir de materiais reciclados.

O projeto foi desenvolvido por uma marca esportiva japonesa e começou há quatro anos. A população foi convidada a depositar roupas usadas em pontos de coleta distribuídos pelo país. Essas peças foram separadas, transformadas em poliéster e tingidas por um processo especial que requer menos água que o usual. Já os uniformes das pessoas que carregaram a tocha olímpica foram produzidos a partir de garrafas de plástico recicladas.

Uniformes dos voluntários nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020

Fonte: Olympics.com/Tokyo-2020

Outra iniciativa sustentável e inovadora desses jogos foi o Projeto Medalha Tóquio 2020. Durante dois anos, os japoneses doaram ao projeto dispositivos eletrônicos em desuso ou estragados. Foram arrecadadas 80 toneladas – suficientes para a produção de 5 mil medalhas. Também foi realizada uma competição nacional para a escolha do melhor designpara a condecoração. O vencedor, entre os mais de 400 projetos finalistas, foi Junichi Kawanishi, diretor da Sociedade de Design de Osaka.

Esses são apenas dois bons exemplos de esforços conjuntos do governo, da população e de empresas do Japão rumo a uma nova realidade – afinal, o futuro é desconhecido, mas há claros sinais de impossibilidade de vida a médio prazo no planeta.

A produção de plástico e a reciclagem no Japão

Um constante alvo do governo japonês tem sido tentar reduzir a poluição e o desperdício com o máximo prolongamento de vida dos produtos, além de mitigar os drásticos efeitos da devastação de recursos naturais.

Apesar do uso excessivo de plásticos descartáveis na ilha nipônica, desde junho de 1995, existe a Lei nº 112, conhecida como Lei para a Promoção da Coleta Seletiva e Reciclagem de Recipientes e Embalagens. E, desde o início dos anos 2000, o país também conta com um rígido sistema de reciclagem, baseado no modelo de economia circular.

Rio Arakawa – área metropolitana de Tóquio

Fonte: Clean Aid Forum

É contraditório que os japoneses sejam conhecidos pela forma como lidam com os resíduos. Costumeiramente são vistos em eventos esportivos com seus próprios recipientes para depositar o lixo que produzem. Também têm um sistema específico de símbolos para a reciclagem, conhecido como risaikuru shikibetsu hyoji(marcas de identificação de reciclagem, em tradução livre). Ao mesmo tempo, o Japão é o segundo maior produtor de plástico per capitado mundo – para facilitar o consumo rápido, por “praticidade”, a maior parte dos produtos que circula no país é embalada com plástico descartável.

 

Símbolos de reciclagem no Japão

Fonte: All recycling facts

 Entretanto, o país asiático tem dado exemplos do que podemos fazer em nível macro – responsabilidade de governantes, instituições, empresas, indústrias – e em nível micro – parte que toca a cada cidadão. Em matéria de outubro de 2020, falamos da necessidade de se ter consciência de que o resíduo que sai da nossa casa não é lixo. Tudo no universo está interligado e, por isso, precisamos desacelerar a devastação do meio ambiente, a produção industrial e o consumismo para garantir a existência de vida neste planeta. Para garantir a nossa existência.

Dicas Verdes

Vídeo

Recycling in Japan – a how to guide

Canal Eatyourkimchi Studio (com legendas em inglês) 

Mapa

Waste Atlas

Mapa de acesso gratuito, elaborado por cientistas de diferentes países, que visualiza dados de gestão de resíduos sólidos em 164 países.

 Por Caroline Cardoso

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