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Semana Mundial do Meio Ambiente: em vez de comprar, reimagine, recrie, restaure

Em uma conversa telefônica bastante agradável, no início de uma fria noite de quinta-feira, conheci uma mulher que está fazendo um trabalho incrível. Ela é Mariana de Godoy Amazonas, 45 anos, idealizadora do projeto Roda, que transforma roupas.

Após mais de 15 anos dedicados à área de Planejamento e Marketing em várias empresas do varejo, Mariana tornou-se empreendedora ambiental. Essa mudança foi um processo que teve como clímax o mestrado em Ecological Design Thinking, há três anos, na Inglaterra. Ela desenvolveu um trabalho sobre a poluição dos rios em uma comunidade de Recife em busca de sistemas regenerativos baseados na própria natureza.

Ao longo de sua pesquisa, ela conheceu um ateliê de costura que tinha uma forma afetiva de atuação. Ali, a relação com o cliente se dava com muita conversa para compreender quem ele era e o que estava buscando e, assim, oferecer um produto, de fato, relevante. Essa estratégia encantou Mariana e, com tudo que estava aprendendo sobre economia circular em seu curso, ela teve a ideia de criar a Roda com essa linha afetiva de atendimento.

Foto: Roda – Para fazer o mundo girar

A ideia saiu do papel em março de 2020 em fase experimental e, em agosto, Mariana abriu um estúdio. Desde então, já foram mais de 700 remodelações. Seguindo o modelo da economia circular, ela estabelece um vínculo com o cliente em uma conversa para traçar o seu perfil e entender a sua real necessidade. Aquela peça largada no fundo do guarda-roupa é analisada minuciosamente por ambos, de modo que o cliente se sinta estimulado a criar sua nova peça aproveitando o máximo possível da original. “Também queremos estimular a criatividade e educar. Nossa indumentária é muito significativa para nossa autoestima. A imposição de padrões e a massificação das roupas destroem a criatividade, a expressão verdadeira de nossa essência na roupa. Queremos resgatar isso.”

Foto: Roda – Para fazer o mundo girar

Os números da indústria da moda

Outono-inverno. Primavera-verão. Esses são, talvez, os binômios mais conhecidos do mundo da moda. Entra estação, sai estação e todas as vitrines mudam para acomodar os novos itens do estoque. E o que acontece com aquela imensa quantidade de roupas não vendidas da coleção anterior que precisa dar lugar às “novas”? São depositadas em aterros ou queimadas.

A indústria têxtil, um negócio que movimenta cerca de US$ 1 trilhão ao ano, é uma cadeia produtiva gigantesca em todo o mundo e compreende não só roupas, mas também móveis estofados. A incineração e a danificação de peças são corriqueiras nesse ramo. Ou pelo menos eram. Em 2018, um escândalo envolvendo grandes marcas, como a britânica Burberry e a norte-americana Nike, e redes de fast-fashion, como a sueca H&M, trouxe à tona esse elo entre uma das cadeias produtivas mais ricas do planeta e a poluição do meio ambiente.

Segundo a Ellen MacArthur Foundation, a cada segundo, o equivalente a um caminhão de lixo cheio de tecidos é depositado em aterro ou queimado. Lavar roupas libera meio milhão de toneladas de microfibras plásticas no oceano todos os anos, o equivalente a mais de 50 bilhões de garrafas plásticas. Produzir uma simples camiseta gasta 2,7 mil litros de água. Se nada mudar, em 2050 a indústria da moda consumirá um quarto do orçamento de carbono do mundo.

 

Em 2018, a indústria da moda foi responsável por 4% do total de resíduos produzidos no mundo, o equivalente a 92 milhões de toneladas, segundo relatório da Pulse of the Fashion Industry. A maioria desses resíduos são sobras dos processos de produção. Esses resultados aproximam a indústria têxtil da indústria de cimento e da pecuária, por exemplo, outras duas grandes cadeias produtivas de alto impacto ambiental.

Transformar é melhor que reciclar

A pressão dos movimentos em prol do meio ambiente e de consumidores mais conscientes vem provocando singelas, mas importantes mudanças no setor, como o upcyclingDiferentemente da popular reciclagem, processo no qual os produtos descartados são decompostos em suas matérias-primas para a produção de novos produtos – o que também gera resíduos e polui –, o upcycling consiste em desmontar um produto descartado e reaproveitar suas partes constituintes para criar novos produtos.

Foto: Roda – Para fazer o mundo girar

Assim, a reutilização ou o reaproveitamento de materiais, também conhecidos como economia circular, acaba por preservar a integridade e muitas das características do material original, o que reduz custos, desperdícios e resíduos, além de minimizar danos ambientais.

Se considerarmos que em 2018 foram produzidas no Brasil mais de nove bilhões de peças, iniciativas como a de Mariana são louváveis, pois seu projeto atua na transformação de roupas como forma de reduzir impactos ambientais, mas luta principalmente para conscientizar as pessoas da urgente necessidade de superação da desigualdade social e do consumismo que a indústria da moda reproduz e reforça. “Em vez de usar toda a nossa criatividade para fazer o dinheiro crescer, precisamos usá-la para nos reconectar conosco e com a natureza, pois tudo que fazemos tem um impacto.”

Por Caroline Cardoso

Saiba mais sobre a Semana Mundial do Meio Ambiente.

 

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