Bioeconomia brasileira: o que está em jogo na disputa pelo futuro da Amazônia e do Cerrado

Allan Moreno Magri
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos – Fundação Verde Herbert Daniel
Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança
🔗 www.linkedin.com/in/allanmagri-esg

Tem coisa que a gente só entende quando para e olha o todo. E a bioeconomia é uma dessas.

Durante muito tempo, o Brasil se acostumou a tratar seus ativos naturais como estoque a ser explorado — madeira que vira tora, terra que vira pasto, biodiversidade que vira estatística. Só que o mundo mudou. E, aos poucos, o Brasil também começa a perceber que o verdadeiro valor não está em derrubar a floresta, mas em mantê-la de pé, gerando riqueza, renda e inovação.

É aí que entra a bioeconomia.

De forma simples — e sem firula — bioeconomia é usar os recursos biológicos de forma inteligente, sustentável e com valor agregado. É transformar biodiversidade em produto, ciência em negócio e floresta em ativo econômico. Não é romantismo ambiental. É estratégia.

E o Brasil, sejamos diretos, joga em casa.

Estamos falando do país com a maior biodiversidade do planeta, com biomas como a Amazônia e o Cerrado que são verdadeiras potências naturais. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Brasil abriga cerca de 20% da biodiversidade global (MMA, 2023). Isso não é detalhe. Isso é vantagem competitiva.

A Amazônia, por exemplo, não é só floresta. É um laboratório vivo com potencial para gerar fármacos, cosméticos, alimentos funcionais, bioinsumos e soluções tecnológicas que o mundo inteiro está buscando. Já o Cerrado, muitas vezes esquecido no debate, é a caixa d’água do Brasil e um dos biomas mais ricos em biodiversidade — e também um dos mais ameaçados.

Agora vem a pergunta que realmente importa: se temos tudo isso, por que ainda não lideramos esse jogo?

A resposta não é simples, mas passa por três pontos centrais: modelo econômico, governança e visão de futuro.

Primeiro, o modelo.

O Brasil ainda opera, em grande parte, dentro de uma lógica extrativista de baixo valor agregado. Exportamos commodities e importamos tecnologia. Vendemos matéria-prima e compramos produto final. Isso vale para o agro, para a mineração e, infelizmente, também para a biodiversidade.

A bioeconomia propõe justamente o contrário: agregar valor na origem. É desenvolver cadeias produtivas locais, fortalecer comunidades, investir em ciência e tecnologia e criar uma economia baseada no conhecimento da floresta — não na sua destruição.

Segundo, governança.

Falta coordenação. Falta política pública integrada. Falta segurança jurídica para quem quer investir certo.

Hoje, quem trabalha com bioeconomia no Brasil — seja uma startup, uma cooperativa ou uma comunidade tradicional — enfrenta um labirinto de regras, burocracias e inseguranças. A ausência de um marco regulatório claro e de uma estratégia nacional consistente trava o avanço de um setor que poderia estar gerando emprego, renda e protagonismo internacional.

O BNDES já aponta a bioeconomia como vetor estratégico para o desenvolvimento sustentável brasileiro (BNDES, 2022), mas ainda estamos longe de transformar isso em política de Estado robusta e contínua.

Terceiro ponto: interesses.

E aqui a conversa fica mais séria.

A transição para uma bioeconomia forte mexe com estruturas consolidadas. Mexe com quem ganha dinheiro com o modelo atual. E não estamos falando de pouca coisa.

O avanço da fronteira agrícola, a exploração predatória de recursos naturais e a lógica de curto prazo ainda têm muito peso político e econômico no Brasil. A bioeconomia, por outro lado, exige visão de longo prazo, investimento em inovação e mudança de mentalidade.

E mudança, você sabe, nunca vem sem resistência.

Mas — e aqui está o ponto que me chama atenção — enquanto a gente discute, o mundo está se movendo.

A União Europeia, por exemplo, já tem uma estratégia consolidada de bioeconomia desde 2018, integrando inovação, sustentabilidade e competitividade (European Commission, 2018). Grandes fundos internacionais estão cada vez mais direcionando recursos para soluções baseadas na natureza. Empresas globais estão revisando suas cadeias de valor.

Ou seja: não é uma tendência. É uma realidade.

E, nesse cenário, o Brasil tem duas opções bem claras: liderar ou assistir.

Agora, saindo do macro e trazendo para o chão da realidade, é importante dizer que a bioeconomia não é teoria. Ela já acontece — e, muitas vezes, longe dos holofotes.

Na Amazônia, comunidades ribeirinhas e extrativistas trabalham com cadeias de valor do açaí, da castanha, do cacau nativo e de óleos essenciais, gerando renda sem derrubar a floresta. No Cerrado, iniciativas com baru, pequi e outros frutos nativos mostram que é possível conciliar conservação e desenvolvimento.

Essas experiências têm algo em comum: conhecimento local, organização comunitária e, quando dá certo, acesso a mercado.

O problema é escala.

Sem investimento, sem infraestrutura, sem apoio técnico e sem política pública consistente, essas iniciativas ficam limitadas. E o que poderia ser um modelo de desenvolvimento nacional acaba restrito a nichos.

É como ter um motor de Fórmula 1 rodando em primeira marcha.

E aqui entra um ponto que, na minha visão, precisa ser dito com todas as letras: bioeconomia não é pauta ambiental. É pauta de desenvolvimento nacional.

Estamos falando de geração de emprego, de inclusão produtiva, de inovação tecnológica, de posicionamento geopolítico e de soberania econômica.

Num mundo que caminha para uma economia de baixo carbono, baseada em soluções naturais e inovação sustentável, o Brasil tem uma oportunidade histórica nas mãos. Mas oportunidade, se não for tratada com estratégia, vira frustração.

O caminho passa por algumas escolhas claras

Investir pesado em ciência, tecnologia e inovação aplicada à biodiversidade.
Criar um ambiente regulatório seguro e inteligente.
Fortalecer cadeias produtivas locais e comunidades tradicionais.
Integrar bioeconomia à política industrial brasileira.
E, principalmente, alinhar discurso e prática.

Não dá mais para falar em sustentabilidade de um lado e incentivar desmatamento do outro. Essa conta não fecha — nem ambientalmente, nem economicamente.

Se a gente quiser jogar sério, precisa tratar a bioeconomia como política de Estado, não como pauta acessória.

No fim das contas, a disputa pelo futuro da Amazônia e do Cerrado não é só ambiental. É econômica, política e estratégica.

É sobre que tipo de país queremos ser.

Um país que continua exportando natureza bruta e importando valor?
Ou um país que transforma sua biodiversidade em riqueza, inovação e protagonismo global?

A resposta está na mesa.

E, sinceramente, já passou da hora de escolher.

Referências (formato ABNT):

BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Bioeconomia: oportunidades e desafios para o Brasil. Rio de Janeiro: BNDES, 2022.

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente (MMA). Biodiversidade brasileira: panorama e importância estratégica. Brasília: MMA, 2023.

EUROPEAN COMMISSION. A sustainable bioeconomy for Europe: strengthening the connection between economy, society and the environment. Brussels: European Commission, 2018.

IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Bioeconomia no Brasil: dimensões econômicas e sociais. Brasília: IPEA, 2021.

EMBRAPA. Bioeconomia da sociobiodiversidade: conceitos e práticas no Brasil. Brasília: Embrapa, 2020.

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