Por que o crédito é tão caro no Brasil?

Por Allan Moreno Magri – Fundação Verde Herbert Daniel (FVHD)

Um olhar direto sobre os juros, seus impactos no dia a dia e o que está em jogo no debate nacional

Tem um assunto que aparece nas conversas de família, nos grupos de WhatsApp e nas manchetes dos jornais com uma frequência que não é por acaso: os juros. Seja na prestação do financiamento da casa própria, na fatura do cartão ou na tentativa de conseguir um empréstimo para tocar um pequeno negócio — o custo do crédito está em todo lugar.

Em 2026, esse debate voltou ao centro da agenda nacional com força total. E, como acontece em todo assunto complexo, existe muita gente falando ao mesmo tempo, com visões diferentes e argumentos legítimos dos dois lados.

O problema é que, no meio desse barulho todo, quem mais paga a conta — a família que precisa renegociar uma dívida, o empreendedor que quer contratar, o trabalhador que sonha em sair do aluguel — muitas vezes não encontra uma explicação clara sobre o que está acontecendo e por quê.

Esse artigo existe para preencher essa lacuna. Sem torcida para um lado ou para o outro. Só clareza.

Juros: o que são e por que eles importam tanto

Na essência, juro é o preço do dinheiro. Quando você toma um empréstimo, está usando um recurso que pertence a outra pessoa — um banco, um investidor, um fundo. Esse alguém cobra por isso. E o quanto cobra depende de uma série de fatores: o risco de não receber de volta, o tempo que vai ficar sem aquele dinheiro e o que mais acontece na economia ao redor.

No Brasil, a taxa que puxa todas as outras é a Selic — a taxa básica da economia, definida pelo Banco Central a cada 45 dias. Quando ela sobe, tudo fica mais caro: financiamento de imóvel, carro, capital de giro, cartão de crédito. Quando ela cai, o crédito respira e a economia, em tese, acelera.

O efeito prático disso na vida real é direto: juros altos travam decisões. Empresas adiam contratações. Famílias adiam sonhos. Municípios e estados têm dificuldades para investir em serviços públicos quando parte das receitas vai para o pagamento de dívidas corrigidas por essas taxas.

Por que o Brasil é um caso à parte no mundo?

Essa é a pergunta que mais incomoda — e com razão. Porque quando você compara o Brasil com outras economias emergentes e até com países desenvolvidos, a diferença no nível dos juros reais (descontada a inflação) é gritante. Então, o que nos trouxe até aqui?

A memória da inflação não some de uma hora para outra

O Brasil passou décadas com inflação fora de controle. Quem viveu os anos 1980 e começo dos 1990 sabe que o dinheiro perdia valor de um dia para o outro. O Plano Real, em 1994, foi um ponto de virada, mas a desconfiança de mercado e a necessidade de sinalizar compromisso com a estabilidade criaram um sistema que passou a usar juros altos como escudo. Esse escudo ficou. E ficou caro.

O risco fiscal e a percepção dos investidores

Quando investidores — brasileiros ou estrangeiros — avaliam se vão ou não emprestar dinheiro para o governo, eles olham para as contas públicas. Se o país gasta mais do que arrecada de forma recorrente e a dívida cresce sem perspectiva de controle, eles exigem juros maiores para assumir esse risco. É como um banco que cobra mais caro de quem tem o nome sujo. A percepção de risco fiscal no Brasil ainda pesa muito nessa equação.

Inadimplência elevada e sistema bancário concentrado

Outro fator que explica parte dos juros altos é a inadimplência crônica. Quando muita gente deixa de pagar, os bancos precificam esse risco nas taxas cobradas de todo mundo. Soma-se a isso um sistema financeiro historicamente concentrado em poucos players, o que reduz a competição e mantém os spreads — a diferença entre o que o banco paga para captar e o que cobra do cliente — entre os mais altos do mundo.

Os diferentes diagnósticos — e por que todos têm alguma razão

O debate sobre juros no Brasil não é simples e não tem um único vilão. Existem correntes de pensamento econômico sérias, com argumentos consistentes, que chegam a conclusões diferentes. Conhecer cada uma delas é essencial para não cair em simplificações.

Quem coloca a disciplina fiscal no centro

Para essa corrente, a raiz do problema é fiscal. Gastos públicos fora de controle geram desconfiança, que gera risco, que gera juros altos. A solução, portanto, passa por reformas que equilibrem as contas do governo e sinalizem responsabilidade para o mercado. Sem isso, qualquer queda dos juros seria artificial e temporária.

Quem aposta no crédito como motor do desenvolvimento

Os desenvolvimentistas partem de um pressuposto diferente: o crédito não é apenas consequência do crescimento, é condição para ele. Investimento em infraestrutura, indústria, inovação e geração de empregos precisa de financiamento acessível. Bancos públicos e programas dirigidos são instrumentos legítimos nessa lógica — não ameaças à estabilidade, mas ferramentas de política econômica.

Quem defende uma combinação de instrumentos

Uma terceira visão defende que controlar a inflação só com juros é uma solução parcial — e cara. Nessa perspectiva, uma agenda de produtividade, investimento público qualificado, fortalecimento da renda e redução das desigualdades também ajudam a manter a inflação sob controle, sem penalizar o crescimento. O desafio é coordenar tudo isso com coerência.

As três visões têm pontos válidos. E as três reconhecem que não dá para viver com inflação alta nem com crédito permanentemente inacessível. A divergência está no caminho, não no destino.

Quem sente mais — e quem sente menos

Juros altos não atingem todo mundo da mesma forma. E entender essa assimetria é fundamental para compreender por que o debate tem tanto peso social.

Famílias que dependem de crédito para comprar uma geladeira, renegociar uma dívida ou financiar a casa própria pagam o preço integral. Pequenos empreendedores que precisam de capital de giro para não fechar as portas idem. Municípios que querem investir em saneamento ou mobilidade urbana, mas estão presos em serviços de dívida corrigidos por taxas altas, também.

Por outro lado, quem tem capital aplicado em títulos públicos ou produtos de renda fixa encontra nos juros altos uma remuneração atrativa. Esse é um dos aspectos distributivos mais sensíveis do debate: a política monetária, quando mantida por muito tempo em patamares elevados, pode acabar transferindo renda de quem produz para quem aplica.

Não é uma afirmação ideológica — é uma consequência matemática que economistas das mais diferentes correntes reconhecem.

O que países bem-sucedidos têm em comum

Não existe fórmula mágica e nenhum modelo estrangeiro pode ser transplantado diretamente para o Brasil. Mas a experiência internacional oferece algumas lições úteis.

Países que conseguiram manter estabilidade econômica e ampliar o acesso ao crédito ao longo do tempo costumam combinar alguns elementos: instituições sólidas e confiáveis, regras fiscais claras e respeitadas, sistema financeiro competitivo, segurança jurídica para contratos e investimentos, e políticas de longo prazo com consistência entre governos diferentes.

Nenhum desses elementos se constrói de um mandato para o outro. São condições que exigem continuidade, debate qualificado e uma sociedade civil capaz de cobrar e acompanhar.

O que a Fundação Verde Herbert Daniel defende nesse debate

A Fundação Verde Herbert Daniel parte de um princípio simples: crédito acessível é uma questão de desenvolvimento humano.

Quando famílias têm acesso a financiamento justo, elas constroem patrimônio, planejam o futuro e saem da vulnerabilidade. Quando pequenos empreendedores conseguem capital de giro, eles contratam, pagam impostos e constroem comunidade. Quando empresas podem investir com custo razoável de capital, elas inovam, crescem e geram riqueza distribuída.

Defender crédito acessível não é o mesmo que defender irresponsabilidade fiscal ou ignorar a inflação. É reconhecer que uma economia que não consegue financiar seus próprios projetos de vida e negócios tem um problema estrutural que precisa ser enfrentado com seriedade — e com urgência.

O Brasil tem tudo para construir um sistema financeiro mais competitivo, mais inclusivo e mais alinhado ao desenvolvimento sustentável. O caminho não é simples, mas o destino vale o esforço.

Esse é um debate que a sociedade precisa ter — informada, sem slogans e sem simplificações. Esperamos contribuir com isso.

Fontes e referências

Banco Central do Brasil — Relatórios de Política Monetária e Notas do COPOM. www.bcb.gov.br

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — Indicadores econômicos e sociais. www.ibge.gov.br

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada — Estudos sobre crédito, distribuição de renda e política fiscal. www.ipea.gov.br

OCDE — Estudos comparativos sobre sistemas financeiros e crescimento econômico. www.oecd.org

Allan Moreno Magri

Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos — Fundação Verde Herbert Daniel

Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança

LinkedIn: Allan Magri

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