Allan Moreno Magri
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos | Fundação Verde Herbert Daniel
Especialista em ESG, Sustentabilidade, Governança e Gestão Pública
Membro de comitês executivos ABNT/ISO (Ambiental, Auditoria, Governança e ESG)
LinkedIn: www.linkedin.com/in/allanmagri-esg
Discutir o Acordo entre a União Europeia e o Mercosul é, antes de mais nada, refletir sobre escolhas estratégicas — econômicas, políticas e ambientais — que moldarão não apenas a inserção internacional do Brasil, mas também o destino de seus principais biomas, com destaque para a Amazônia.
Após mais de duas décadas de negociações, o tratado voltou a ocupar espaço central nas discussões geopolíticas, sendo frequentemente apresentado como um marco de progresso comercial. No entanto, impõe-se uma indagação fundamental: estaríamos diante de uma ferramenta de promoção do desenvolvimento sustentável ou de um mecanismo que perpetua um modelo esgotado?
Comércio internacional em um cenário de emergência climática
De acordo com o IPCC (2023), a temperatura média global já aumentou aproximadamente 1,1°C em relação aos níveis pré-industriais, com impactos desproporcionais sobre países em desenvolvimento e regiões tropicais. Paralelamente, dados da FAO revelam que:
mais de 90% do desmatamento global está associado à expansão agropecuária;
a conversão de florestas contribui com cerca de 10% das emissões mundiais de gases de efeito estufa.
Neste contexto, os acordos comerciais transcendem suas funções econômicas e passam a atuar como vetores diretos de impactos ambientais e sociais.
Riscos ambientais: o que está em jogo para o Brasil
O Brasil ingressa nesse acordo como um dos principais exportadores de commodities como soja, carne bovina, milho e minérios — todos setores que demandam uso intensivo do solo e pressionam ecossistemas sensíveis.
Estudos da própria Comissão Europeia indicam que o tratado pode incentivar:
- a expansão da produção agropecuária nos países do Mercosul;
- o aumento da pressão sobre florestas tropicais;
- o avanço do desmatamento indireto.
Conforme o MapBiomas (2023), o Brasil perdeu mais de 20 milhões de hectares de vegetação nativa na última década, com destaque para a Amazônia e o Cerrado — justamente os biomas mais impactados pelas cadeias exportadoras. O alerta, portanto, não é teórico, mas baseado em dados concretos e verificáveis.
Desigualdades estruturais: União Europeia versus Mercosul
Um dos pontos mais controversos do acordo reside nas assimetrias entre os blocos.
Enquanto a União Europeia opera com elevada capacidade tecnológica, políticas agrícolas subsidiadas e cadeias produtivas com rastreabilidade consolidada, os países do Mercosul enfrentam desafios históricos relacionados à fiscalização ambiental, à regularização fundiária e à limitação de recursos para investimentos sustentáveis.
Segundo a OCDE, mais de 60% das exportações do Mercosul para o bloco europeu correspondem a produtos primários ou de baixo valor agregado — um padrão que perpetua a lógica centro-periferia: enquanto países centrais exportam tecnologia, os periféricos continuam a exportar recursos naturais brutos.
Entre o agronegócio e a agricultura familiar: desequilíbrios internos
Embora o discurso institucional aponte benefícios para o setor agrícola, tais vantagens tendem a se concentrar em grandes exportadores. A agricultura familiar — responsável por aproximadamente 70% da produção de alimentos consumidos internamente (FAO/IBGE) — permanece em desvantagem, enfrentando:
- dificuldades de acesso a crédito e financiamento;
- barreiras técnicas para cumprir exigências internacionais;
- risco de exclusão das cadeias globais de fornecimento.
Esse cenário aprofunda desigualdades regionais e socioeconômicas, contribuindo para a concentração fundiária e a marginalização de pequenos produtores.
Cláusulas ambientais: compromisso efetivo ou proteção disfarçada?
Embora o texto do acordo contemple compromissos com o Acordo de Paris e preveja cláusulas ambientais, a eficácia dessas disposições é alvo de questionamentos.
Faltam respostas claras para perguntas cruciais:
- Quem será responsável pela fiscalização?
- Quais mecanismos de apoio financeiro serão implementados?
- Haverá penalidades concretas em caso de descumprimento?
Sem instrumentos robustos de cooperação técnica, financiamento climático e transferência de tecnologia, tais cláusulas correm o risco de se tornarem barreiras comerciais disfarçadas, penalizando economias em desenvolvimento.
O risco de uma sustentabilidade meramente simbólica
A instrumentalização da agenda ambiental como peça de marketing internacional representa um dos maiores perigos.
Assina-se o acordo, publicam-se compromissos climáticos, mas no território persistem:
- desmatamento em ritmo acelerado;
- comunidades vulnerabilizadas;
- fiscalização ineficiente.
- A sustentabilidade genuína requer:
- estruturas de governança sólidas;
- transparência e acesso a dados públicos;
- participação social efetiva;
- responsabilização clara dos agentes envolvidos.
Sem esses elementos, o discurso ambiental torna-se vazio e inócuo.
Perspectivas para um comércio mais justo e sustentável
A discussão não deve ser polarizada entre ser a favor ou contra o acordo. O foco deve estar em como transformá-lo em um instrumento coerente com os princípios da justiça climática.
✅Algumas diretrizes fundamentais incluem:
✅promoção da bioeconomia e de modelos produtivos de baixo carbono;
✅rastreabilidade efetiva das cadeias produtivas;
✅fortalecimento da agricultura familiar e das comunidades tradicionais;
✅criação de mecanismos de financiamento climático;
inclusão da sociedade civil na governança ambiental do acordo.
Considerações finais: escolhas que moldam o futuro
O Acordo União Europeia–Mercosul pode representar uma oportunidade estratégica. No entanto, sem uma condução responsável, corre o risco de intensificar desigualdades históricas sob o pretexto da modernização econômica.
O Brasil dispõe de um patrimônio ambiental inigualável e de competência técnica para liderar uma transição sustentável. O desafio está em articular comércio, proteção ambiental e justiça social em um projeto nacional coeso.
O futuro não será verde por imposição — será fruto de decisões corajosas, pactos sociais e compromisso real com as gerações que virão.
Fontes e Referências
IPCC – Sixth Assessment Report (2023)
FAO – The State of the World’s Forests (2022–2023)
Comissão Europeia – Sustainability Impact Assessment of the EU-Mercosur Agreement
OCDE – Environmental Performance Reviews
MapBiomas – Relatório Anual de Desmatamento (2023)
FAO / IBGE – Agricultura Familiar no Brasil