Por Allan Moreno Magri | Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos – Fundação Verde Herbert Daniel (FVHD) Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança MBA em ESG e Sustentabilidade Empresarial – PUC Minas LinkedIn: linkedin.com/in/allanmagri-esg
Junho foi um mês de reflexão.
Ao longo das últimas semanas, a Fundação Verde Herbert Daniel trouxe à mesa alguns dos temas mais urgentes para o presente e o futuro do Brasil. Falamos sobre desigualdade, educação, saúde, corrupção, segurança pública, acesso a crédito, reforma tributária, apostas online, desenvolvimento econômico e sustentabilidade.
São dez temas diferentes. Mas quem acompanhou os debates percebeu que, no fundo, eles falam sobre a mesma coisa.
O que esses desafios têm em comum
Quando você coloca esses temas lado a lado, três padrões aparecem com insistência.
Desigualdade estrutural.
O Brasil não é apenas um país economicamente desigual — ele é desigual no acesso a quase tudo: educação, saúde, crédito, mobilidade, tecnologia, justiça. Dependendo do território onde você nasce, seu ponto de partida é completamente diferente. Não é falta de esforço individual. É o peso de uma estrutura que ainda não foi devidamente reformada.
Falta de projeto de longo prazo.
Historicamente, o Brasil tem dificuldade em manter o rumo. Mudam governos, mudam prioridades, e programas que estavam começando a produzir resultado são interrompidos antes de completar o ciclo. Nações que alcançaram desenvolvimento consistente investiram décadas em planejamento. O Brasil segue, muitas vezes, preso na lógica da urgência imediata.
Crise de confiança institucional.
Grande parte da população desconfia da política, dos governos, dos partidos, das fontes de informação. Quando a confiança se corrói, fica muito mais difícil construir consensos, implementar reformas e fortalecer a democracia. E sem democracia fortalecida, os outros dois problemas ficam ainda mais difíceis de resolver.
Esses três fatores não explicam tudo, mas explicam muito. E eles aparecem, de forma direta ou indireta, em praticamente todos os debates que tivemos ao longo do mês.
Nenhum problema existe sozinho
Um dos erros mais comuns na análise dos desafios nacionais é tratar cada um deles como se fosse uma ilha.
A educação influencia a renda. A renda impacta a saúde. A saúde afeta a produtividade. A produtividade move a economia. A economia determina a capacidade de investimento do Estado. Tudo está conectado — e quem tenta resolver uma ponta sem olhar para as outras acaba criando soluções que não sustentam.
Com o meio ambiente, a lógica é a mesma. A degradação ambiental pressiona a produção de alimentos. As mudanças climáticas ampliam o risco de eventos extremos. Enchentes e secas afetam infraestrutura, energia, segurança alimentar e qualidade de vida. Não dá para separar a agenda ambiental da agenda social e econômica — e fingir que dá tem sido um erro caro.
O que muda quando você coloca os óculos verdes
Por muito tempo, sustentabilidade foi tratada como um assunto lateral — importante talvez, mas distante da vida real das pessoas.
Essa visão ficou para trás. E não porque algum relatório internacional mandou mudar, mas porque a realidade foi impondo isso de forma cada vez mais concreta.
A perspectiva verde parte de um princípio que não é idealismo: não existe desenvolvimento real se ele destrói as condições de vida das gerações seguintes. Ponto.
Mas sustentabilidade, na prática, vai muito além de proteger floresta ou reduzir emissão. Ela envolve combater desigualdades, fortalecer instituições democráticas, promover inclusão e garantir que o crescimento econômico chegue onde precisa chegar.
Por isso trabalhamos com três dimensões que não podem ser separadas:
- Prosperidade econômica — geração de renda, emprego, inovação;
- Justiça social — equidade, acesso, inclusão;
- Equilíbrio ambiental — conservação, resiliência climática, uso responsável dos recursos.
Quando uma dessas dimensões é ignorada, o resultado é frágil. Crescimento sem inclusão concentra renda. Políticas sociais sem base fiscal sustentável não duram. Desenvolvimento sem responsabilidade ambiental produz um tipo de progresso que vai sendo cobrado das gerações seguintes — com juros.
O Brasil tem mais ativos do que costuma reconhecer
Tem um certo hábito, no debate público brasileiro, de só enxergar o que está errado.
É importante corrigir o que está errado. Mas ignorar os ativos estratégicos que o país tem é um erro de leitura — e pode custar caro na hora de planejar o futuro.
O Brasil tem uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta. É líder global em energia renovável. Detém uma das maiores biodiversidades do mundo, enormes reservas de água doce e um potencial real e crescente para bioeconomia, agricultura sustentável e economia de baixo carbono. Tem uma população criativa, capaz de inovar em condições adversas.
O problema não é falta de potencial. O desafio — e ele é real — é transformar esse potencial em desenvolvimento que de fato funcione para a maioria das pessoas.
Os avanços que merecem ser reconhecidos
Em meio às dificuldades, aconteceram coisas boas que precisam ser ditas.
O Brasil continua expandindo sua participação em energias renováveis, com destaque para solar e eólica. Segundo dados da ANEEL e da EPE, essas fontes seguem contribuindo para uma matriz energética mais limpa e diversificada — um diferencial que muitos países gostariam de ter.
O monitoramento ambiental da Amazônia avançou, com mais tecnologia de fiscalização e maior geração de dados públicos disponíveis para pesquisadores, jornalistas e formuladores de política.
No campo social, conquistas importantes acumuladas nas últimas décadas — ampliação de direitos, inclusão de grupos historicamente vulneráveis, fortalecimento de mecanismos de participação cidadã — continuam sendo referência.
Os avanços podem parecer lentos quando você está dentro deles. Mas eles existem. E reconhecer isso não é ingenuidade — é honestidade intelectual.
O papel de cada um de nós
As maiores transformações democráticas da história não vieram de cima para baixo. Vieram da pressão organizada da sociedade.
Foi assim na luta pela redemocratização. Foi assim na construção de direitos sociais. Foi assim na defesa do meio ambiente. E continua sendo assim hoje — só que em contextos mais complexos e fragmentados.
Participar não é só votar. É acompanhar políticas públicas, cobrar transparência, fazer parte de conselhos e organizações da sociedade civil, engajar nos debates que moldam as decisões coletivas. É também buscar informação de qualidade e ter disposição para questionar o que aparece na tela do celular.
Democracias fortes dependem de cidadãos informados e engajados. Esse não é um slogan bonito — é o mecanismo real pelo qual as coisas mudam.
O segundo semestre começa agora
Os temas que debatemos ao longo de junho mostram que os desafios do Brasil são complexos. Não existe solução simples para problema estrutural.
Mas também não há razão para pessimismo paralisante. O país já mostrou, mais de uma vez, que consegue superar obstáculos e avançar institucionalmente quando há vontade coletiva para isso.
O que precisamos ampliar é nossa capacidade de diálogo, planejamento e cooperação — especialmente a capacidade de pensar o desenvolvimento de forma integrada, sem separar o que na prática está interligado.
A perspectiva verde contribui justamente com isso: conectar o que é tratado separadamente. Economia, meio ambiente, democracia, educação, saúde e justiça social fazem parte do mesmo projeto de país. Quando tratamos um sem considerar os outros, perdemos a visão do todo — e as soluções que surgem tendem a ser mais caras e menos efetivas.
A posição da Fundação Verde Herbert Daniel
A Fundação Verde Herbert Daniel defende que o desenvolvimento sustentável é o caminho mais seguro e mais justo para enfrentar os grandes desafios nacionais.
Defendemos uma sociedade capaz de combinar prosperidade econômica, proteção ambiental, inovação, justiça social e fortalecimento democrático — não como agenda utópica, mas como direção prática de políticas e decisões.
Acreditamos que nenhuma geração constrói seu futuro destruindo as condições de vida das próximas. E que nenhuma democracia se fortalece sem participação cidadã ativa, informação de qualidade e compromisso com o bem comum.
Ao encerrar este ciclo de debates, fica um convite simples: continue participando. Continue questionando. Continue aprendendo. E contribua, no seu espaço, para a construção de um Brasil mais sustentável, democrático e inclusivo.
O futuro não é algo que simplesmente acontece. O futuro é algo que a gente constrói — com escolhas, com voz e com presença.
Fontes e referências
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — ibge.gov.br
- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) — ipea.gov.br
- Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) — gov.br/aneel
- Empresa de Pesquisa Energética (EPE) — epe.gov.br
- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) — gov.br/inpe
- PNUD Brasil — undp.org/pt/brazil
- ONU — Objetivos de Desenvolvimento Sustentável — brasil.un.org