Por Allan Moreno Magri
Em ano eleitoral, o meio ambiente costuma ganhar espaço nos discursos. Sustentabilidade, proteção das florestas, energia limpa, combate às queimadas, desenvolvimento sustentável e economia verde aparecem com frequência nas falas de candidatos e nos programas de governo.
O problema é que discurso não executa política pública.
Entre dizer que o meio ambiente será prioridade e transformar essa promessa em ação existe uma distância considerável. É nesse intervalo que entram metas, prazos, orçamento, estrutura administrativa, fiscalização, dados confiáveis e capacidade de execução.
É também nesse ponto que o eleitor precisa olhar com mais atenção.
Às vésperas do segundo turno das eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral disponibiliza os programas de governo registrados pelas candidaturas, inclusive com possibilidade de consulta por assunto. Isso permite ao eleitor sair do ambiente dos vídeos curtos, das frases de efeito e dos recortes de campanha para examinar aquilo que foi formalmente apresentado como proposta de governo.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas: “este candidato fala sobre meio ambiente?”
Talvez seja mais útil perguntar: “o que ele pretende fazer, em quanto tempo, com quais recursos e de que maneira será possível verificar se cumpriu?”
1. Por que meio ambiente precisa entrar na comparação eleitoral
Durante muito tempo, questões ambientais foram tratadas como se pertencessem a uma agenda separada das preocupações econômicas e sociais.
Essa separação já não se sustenta.
Meio ambiente está diretamente ligado à agricultura, à geração de energia, ao abastecimento de água, à infraestrutura, à saúde pública, à segurança alimentar, à geração de empregos, ao desenvolvimento regional e às próprias contas do Estado.
Uma enchente, por exemplo, não termina quando a água baixa. Ela pode destruir moradias, interromper serviços, fechar empresas, danificar estradas, comprometer sistemas de transporte e exigir grandes volumes de recursos públicos para reconstrução.
Uma seca prolongada também não é apenas um fenômeno climático. Ela reduz a produção agrícola, pressiona o sistema elétrico, compromete reservatórios e pode chegar ao consumidor na forma de alimentos mais caros.
Por isso, analisar a política ambiental de uma candidatura é também avaliar como ela pretende lidar com desenvolvimento econômico, prevenção de riscos e gestão pública.
2. Meta sem prazo não é plano
Promessas genéricas merecem atenção.
“Combater o desmatamento”, “proteger os biomas”, “investir em energia limpa” ou “tornar as cidades sustentáveis” são formulações positivas, mas ainda muito abertas.
Elas dizem o que se deseja alcançar, mas não explicam como isso será feito.
Uma proposta consistente deveria responder, no mínimo, a quatro perguntas:
Qual é a meta? Qual é o prazo? Quem será responsável? Como o resultado será medido?
Os dados recentes sobre desmatamento ajudam a compreender a importância desse tipo de indicador.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento na Amazônia foi de 3.335 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026, uma redução de 41,8% em relação ao período anterior e o menor resultado da série histórica iniciada em 1988.
No Cerrado, foram registrados 5.516,69 km², queda de 23,8% e também o menor valor da série histórica referente ao bioma.
O ponto aqui não é transformar esses números em argumento eleitoral.
É lembrar que políticas públicas precisam deixar rastros mensuráveis.
Independentemente da posição política do eleitor, indicadores permitem verificar se houve avanço, estagnação ou retrocesso.
Sem medida, quase tudo pode virar narrativa.
3. Orçamento e capacidade de execução
Há uma pergunta que considero indispensável em qualquer análise de gestão pública: de onde virá o dinheiro?
Nenhuma política ambiental funciona apenas com intenção.
Se uma candidatura promete ampliar a fiscalização, recuperar áreas degradadas, prevenir enchentes, fortalecer unidades de conservação ou incentivar determinada tecnologia, é legítimo perguntar quanto isso custará e qual será a fonte dos recursos.
Mas o orçamento é apenas uma parte da equação.
Também é preciso observar se existe capacidade administrativa para colocar a proposta em prática.
Há equipes técnicas suficientes? Os órgãos responsáveis têm estrutura? Será necessário contratar pessoal? A execução dependerá de estados e municípios? Existem mecanismos de financiamento? A proposta exige mudanças legais?
Essas perguntas ajudam a distinguir uma ideia politicamente atraente de uma política administrativamente viável.
Na gestão pública, orçamento não é detalhe.
Orçamento revela prioridade.
4. Fiscalização e órgãos ambientais
Também vale observar como os programas tratam instituições como Ibama, ICMBio e os órgãos estaduais e municipais responsáveis pela política ambiental.
Não basta aprovar regras se o Estado não consegue fiscalizá-las.
O eleitor pode procurar propostas relacionadas à estrutura das equipes, ao uso de tecnologias de monitoramento, à integração de bases de dados, ao combate aos crimes ambientais, à prevenção de incêndios, ao licenciamento e à fiscalização.
Ao mesmo tempo, fiscalização eficiente não deveria significar burocracia sem finalidade.
Quem produz dentro da legalidade precisa encontrar regras claras, previsíveis e tecnicamente justificadas.
Esse talvez seja um dos principais desafios de uma boa política ambiental: ser firme contra a ilegalidade sem transformar a regularidade em obstáculo.
Segurança ambiental e segurança jurídica não precisam ocupar lados opostos.
5. Ciência, dados e combate ao negacionismo
Outra pergunta importante é direta: em quais dados essa proposta está baseada?
O Brasil possui instituições reconhecidas pela produção de conhecimento e pelo monitoramento ambiental, entre elas o INPE, universidades, centros de pesquisa e órgãos técnicos especializados.
Uma política pública séria precisa dialogar com esse conhecimento.
Isso não significa tratar a ciência como verdade intocável.
A ciência avança justamente porque métodos, dados e conclusões podem ser examinados, questionados e revistos.
O problema aparece quando evidências são descartadas não por falhas técnicas, mas porque se tornaram inconvenientes para determinada narrativa política.
Governar exige tomar decisões inclusive quando os dados contrariam expectativas, interesses ou discursos previamente construídos.
6. Amazônia, Cerrado e demais biomas
Quando o tema é política ambiental no Brasil, a Amazônia naturalmente ocupa grande parte do debate.
Mas o país possui seis grandes biomas continentais: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal.
Cada um possui características, pressões e desafios específicos.
Para quem vive no Centro-Oeste, compreender o Cerrado é especialmente importante.
Além da biodiversidade, o bioma abriga nascentes associadas a algumas das principais bacias hidrográficas brasileiras. Sua conservação, portanto, não diz respeito apenas à paisagem ou à fauna e à flora. Está diretamente relacionada à disponibilidade de água em diferentes regiões do país.
Uma proposta ambiental consistente precisa enxergar o território brasileiro como um conjunto diverso.
Proteger florestas, combater incêndios e desmatamento ilegal, recuperar áreas degradadas e estimular atividades econômicas sustentáveis não são objetivos incompatíveis com desenvolvimento.
O desafio está justamente em construir modelos capazes de gerar renda e produzir riqueza sem destruir a base natural que sustenta essa mesma economia.
7. Adaptação a eventos extremos
O debate climático também mudou.
Durante muitos anos, a discussão ficou concentrada principalmente na redução de emissões de gases de efeito estufa.
Esse continua sendo um objetivo essencial.
Mas parte dos impactos associados às mudanças climáticas já está ocorrendo.
O próprio Plano Clima 2024–2035 reconhece a intensificação, no Brasil, de fenômenos como secas, enchentes, ondas de calor e elevação do nível do mar.
Por isso, ao analisar um programa de governo, vale procurar propostas relacionadas à drenagem urbana, prevenção de enchentes e deslizamentos, sistemas de alerta, defesa civil, segurança hídrica, arborização urbana, infraestrutura resiliente e planejamento territorial.
Não basta discutir como será o clima nas próximas décadas.
É preciso perguntar também: como nossas cidades estarão preparadas para a próxima chuva extrema, a próxima seca ou a próxima onda de calor?
A adaptação climática deixou de ser um debate distante.
Ela já faz parte da política de proteção da população.
8. Como acompanhar as promessas depois da eleição
Talvez este seja o ponto mais importante de todos.
A participação do cidadão não deveria terminar na urna.
Guardar o programa de governo do candidato eleito é um bom começo. O Tribunal Superior Eleitoral mantém essas propostas disponíveis para consulta.
Depois disso, é possível acompanhar planos plurianuais, leis orçamentárias, portais da transparência, relatórios de gestão e indicadores oficiais.
Compare promessa com orçamento.
Compare orçamento com execução.
Compare execução com resultado.
Parece simples, mas esse hábito ainda está longe de fazer parte da nossa cultura política.
Não precisamos concordar sobre partidos, candidatos ou projetos de país para reconhecer algo básico: governantes devem prestar contas sobre aquilo que prometeram.
Menos slogan, mais gestão
Escolher representantes também significa escolher prioridades para o uso dos recursos públicos e para o futuro do território em que vivemos.
Por isso, quando surgir uma promessa ambiental nesta reta final eleitoral, algumas perguntas podem ajudar:
Qual é a meta?
Qual é o prazo?
Quanto custa?
De onde virá o recurso?
Quem vai executar?
Qual indicador permitirá acompanhar o resultado?
Se uma proposta consegue responder de forma satisfatória a essas perguntas, há algo concreto para avaliar.
Se não consegue, talvez exista apenas uma boa frase de campanha.
Democracia também se constrói assim: quando o eleitor deixa de apenas ouvir promessas e passa a acompanhar o que acontece depois delas.
Allan Moreno Magri
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos | Fundação Verde Herbert Daniel
Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança
Membro de comitês executivos ABNT/ISO nas áreas de meio ambiente, auditoria, governança e ESG
LinkedIn: linkedin.com/in/allanmagri-esg
Fontes e referências
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Plano Nacional sobre Mudança do Clima — Plano Clima 2024–2035. Brasília: MMA, 2026.
INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Brasil alcança menores taxas de desmatamento da série histórica na Amazônia e no Cerrado. São José dos Campos: INPE, 16 out. 2026.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Planos de governo dos candidatos ao cargo de Presidente da República — Eleições 2026. Brasília: TSE, 2026.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Faltam 12 dias: consulte propostas das candidaturas que disputam o 2º turno. Brasília: TSE, 13 out. 2026.