Corrupção no Brasil: o que as evidências dizem sobre o que realmente funciona no combate

Allan Magri

Gestor Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos em ESG e Sustentabilidade | Fundação Verde Herbert Daniel | Coordenador do Depto. de Meio Ambiente – IPI | Membro de Comitês ABNT/ISO Nacional e Internacional | Analista de Processos – BRASFI

Chegou junho e, com ele, o aquecimento definitivo do debate eleitoral de 2026. Nas redes sociais, nos programas de entrevista, nos palanques que já começam a se montar pelo país — corrupção virou palavra de ordem. Todo candidato tem uma frase pronta. Toda fala tem um inimigo nomeado. Todo discurso promete que, dessa vez, vai ser diferente.

Mas raramente alguém para e pergunta: o que as evidências dizem, de fato, sobre o que funciona?

Esse artigo não é para defender governo nenhum. Não é para atacar partido nenhum. É para tentar fazer algo que a política brasileira faz pouco: olhar para os dados com honestidade e tirar lições práticas deles.

O que o Brasil já construiu — e que vale reconhecer

Antes de falar no que falta, é preciso ser justo com o que foi conquistado. E há conquistas reais.

A Lei de Acesso à Informação (LAI — Lei nº 12.527/2011) foi um marco. Ela obrigou órgãos públicos em todos os poderes e esferas a disponibilizar dados à sociedade, transformando radicalmente a relação entre o cidadão e o Estado. Não é exagero dizer que ela mudou a cultura da opacidade que historicamente marcou nossa administração pública.

Os resultados aparecem em situações concretas. Em 2025, por exemplo, foi um pedido formal de acesso à informação que permitiu à Controladoria-Geral da União (CGU) identificar a falsificação do cartão de vacinação do ex-presidente Jair Bolsonaro e desencadear investigações que chegaram a uma tentativa de golpe de Estado. Isso não é retórica: é a LAI funcionando como foi desenhada para funcionar.

A CGU, criada em 2003, tornou-se um dos pilares do controle interno federal, atuando em auditorias, prevenção e combate à corrupção. A Lei Anticorrupção Empresarial (Lei nº 12.846/2013) inovou ao responsabilizar juridicamente pessoas jurídicas por atos ilícitos — algo que não existia antes — e incentivou a criação de programas de compliance no setor privado, alinhando o Brasil a padrões internacionais como os da OCDE.

O TCU (Tribunal de Contas da União) e o Ministério Público Federal também se fortaleceram como instâncias independentes de fiscalização, especialmente a partir dos anos 2000.

São conquistas que precisam ser defendidas, não desmontadas.

O que os diferentes campos políticos propõem — e o que cada proposta tem de válido (e de limitado)

Quando o assunto é combate à corrupção, o debate político tende ao extremo. Mas é mais honesto — e mais útil — enxergar o que cada perspectiva traz de concreto.

O campo liberal: transparência e regras de mercado

A visão mais associada ao campo liberal aposta em transparência radical, simplificação burocrática e fortalecimento do ambiente de negócios. O argumento é direto: a burocracia complexa cria oportunidades para corrupção. Menos regulação, mais competição e contratos mais claros reduzem o espaço para propinas e desvios.

Há fundamento nisso. Países com menor carga regulatória e maior clareza jurídica tendem, sim, a apresentar menor percepção de corrupção. O problema é quando essa lógica se traduz em enfraquecer os órgãos de controle — como CGU, TCU e Receita Federal — sob o argumento de que “o mercado se regula”. Controle não é burocracia: é a estrutura que garante que as regras valham para todos.

O campo da esquerda institucional: auditoria, controle social e participação cidadã

A vertente institucional da esquerda defende o fortalecimento dos organismos de controle, a transparência ativa do Estado e a participação da sociedade civil na fiscalização das políticas públicas. Isso inclui conselhos participativos, acesso ampliado a dados governamentais e mais autonomia para o MPF e a CGU.

O argumento também é sólido. Onde há controle social robusto — imprensa livre, OSCs ativas, mecanismos de denúncia protegidos — a corrupção encontra menos terreno fértil. A fragilidade está quando esse discurso se torna seletivo: quando defende o controle sobre adversários e recua ao deparar com escândalos no próprio campo.

O campo populista: discurso forte, propostas escassas

O populismo — que aparece tanto à direita quanto à esquerda — costuma transformar o combate à corrupção em narrativa de guerra contra inimigos nomeados. O tom é alto, a mobilização é emocional e a promessa é de limpeza radical.

O problema é que discurso sem institucionalidade não combate corrupção: apenas redireciona quem se beneficia dela. Quando a corrupção é tratada como problema de pessoas e não de sistemas, ela persiste — apenas com novos protagonistas. A história recente do Brasil — e de vários países da América Latina — ilustra isso com clareza.

O que a pesquisa internacional mostra: a fórmula que funciona

Aqui é onde o debate deveria começar — e quase nunca começa.

Os dados da Transparência Internacional, publicados em fevereiro de 2026, são categóricos. O Brasil ocupa a 107ª posição entre 182 países no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), com 35 pontos numa escala de 0 a 100. É a segunda pior nota de toda a série histórica e a pior posição desde que o Brasil passou a ser avaliado, em 2012. Para efeito de comparação: no mesmo índice, a Dinamarca lidera pelo oitavo ano consecutivo, com 89 pontos.

Mas o que une os países no topo? O relatório do IPC 2025 é explícito: as melhores pontuações se concentram em países com instituições de controle independentes, altos níveis de transparência, imprensa livre e sistemas efetivos de accountability. Não é coincidência. É padrão.

As democracias plenas atingiram média de 73 pontos no índice. As democracias deficitárias, 47. Os regimes autoritários, apenas 33. O dado diz tudo: democracia e combate à corrupção andam juntos — sempre.

E mais: o relatório alerta que ambientes hostis à imprensa e às organizações da sociedade civil tendem a apresentar percepções mais elevadas de corrupção. Atacar o jornalismo investigativo, enfraquecer ONGs de fiscalização ou intimidar defensores de direitos não é só politicamente perigoso — é estatisticamente correlacionado com mais corrupção.

A evidência internacional converge em três pilares:

1. Instituições independentes e com autonomia real — tribunais de contas, ministérios públicos, controladorias e forças de segurança que funcionem sem interferência política.

2. Imprensa livre e vigorosa — o jornalismo investigativo independente é, historicamente, um dos instrumentos mais eficazes de exposição da corrupção. Sem ele, os outros mecanismos perdem efetividade.

3. Participação cidadã ativa — sociedade civil organizada, acesso à informação e canais reais de denúncia criam pressão permanente sobre o poder.

Não há atalho fora dessa combinação.

Os retrocessos que precisamos nomear

Ser equilibrado não significa ser omisso. Alguns retrocessos são documentados e precisam ser chamados pelo nome.

A Transparência Internacional Brasil aponta que 2025 consolidou o movimento de captura orçamentária pelo Legislativo, com emendas parlamentares que já ultrapassaram R$ 60 bilhões no orçamento aprovado para 2026. A prática se espalhou por assembleias estaduais e câmaras municipais. O crime organizado se infiltrou crescentemente na política, como reconhece a própria Transparência Internacional em seus relatórios regionais.

Em paralelo, o relatório da IPC 2025 indica que, pela primeira vez na história, a média global dos países caiu — era 50 pontos até o ano passado, e hoje é 42. O mundo, não só o Brasil, está regredindo no campo da integridade pública.

Esse contexto é importante: não estamos diante de um problema exclusivamente brasileiro. Mas nossa posição de 107º no ranking — a pior da série histórica — indica que temos muito mais a fazer do que a maioria.

O que cada um de nós pode fazer

Combate à corrupção não é tarefa só de delegados, promotores e ministros. É pauta de democracia. E democracia se faz com cidadania ativa.

Algumas ações concretas que qualquer pessoa pode adotar:

Exija transparência dos seus representantes. 

Todo orçamento público é de acesso aberto. Ferramentas como o Portal da Transparência (transparencia.gov.br) e os portais estaduais e municipais existem para isso. Usá-los é exercício de cidadania.

Valorize o jornalismo investigativo. 

Assine, compartilhe, apoie. A imprensa independente salva dinheiro público. Sem exagero.

Participe dos conselhos e audiências públicas. 

Eles existem. A maioria funciona com metade das cadeiras vazias. Sua presença importa.

Cobre propostas, não apenas indignação. 

Na hora de avaliar candidatos, pergunte: qual é o projeto técnico para fortalecer o controle interno? Qual é a posição sobre a autonomia da CGU e do TCU? O discurso é fácil. A proposta concreta é o teste.

Denuncie.

A CGU tem o sistema Fala.BR (falabr.cgu.gov.br) para denúncias de irregularidades. O Ministério da Transparência tem canais similares. Usar esses mecanismos é parte do jogo democrático.

Conclusão: corrupção se combate com sistema, não com salvadores

O Brasil tem uma tendência histórica de colocar suas esperanças em líderes que prometem limpar tudo de uma vez. A Lava Jato prometeu. O antipetismo prometeu. O antibolsonarismo prometeu. A conta sempre chega — e sempre mostra que corrupção não é resolvida por messias, mas por instituições.

Os países que avançaram de verdade fizeram isso ao longo de décadas, construindo regras que valem para todos, independentemente de quem está no poder. A Dinamarca não chegou aos 89 pontos com um salvador. Chegou com geração após geração de cidadãos que exigiram accountability do Estado.

Nós podemos fazer o mesmo. Mas exige que paremos de delegar o problema aos políticos — e comecemos a encarar que a solução passa por nós também.

Fontes:

  • Transparência Internacional. Índice de Percepção da Corrupção 2025. Fevereiro de 2026. Disponível em: transparenciainternacional.org.br
  • CGU — Controladoria-Geral da União. Portal da Transparência e relatórios institucionais. cgu.gov.br
  • Lei de Acesso à Informação — Lei nº 12.527/2011
  • Lei Anticorrupção Empresarial — Lei nº 12.846/2013
  • Transparência Internacional Brasil. Retrospectiva 2025: avanços e retrocessos no combate à corrupção. Fevereiro de 2026.
  • Conjur. Entre a percepção e a realidade do combate à corrupção. Maio de 2026.

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