Financiamento para a Transição Ecológica: Desafios e Oportunidades no Brasil

Escrito por:

Allan Moreno Magri
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos | Fundação Verde Herbert Daniel
Especialista em ESG, Sustentabilidade, Governança e Gestão Pública
Membro de comitês executivos ABNT/ISO (Ambiental, Auditoria, Governança e ESG)
LinkedIn: www.linkedin.com/in/allanmagri-esg

Introdução – O Brasil tem os ativos, mas o financiamento ainda não chega onde precisa

Falar em transição ecológica no Brasil é, antes de tudo, falar de financiamento. Não por falta de discursos, planos ou compromissos internacionais, eles existem aos montes, mas porque a transformação real da economia só acontece quando o capital é direcionado de forma estratégica, previsível e com integridade.

O Brasil ocupa uma posição única no cenário global. Somos uma potência ambiental por natureza: temos a maior biodiversidade do planeta, uma matriz elétrica majoritariamente renovável, vastos territórios florestais, enorme potencial para a agricultura de baixo carbono e uma bioeconomia que ainda funciona muito aquém do que poderia. O paradoxo é claro: os ativos estão aqui, mas os mecanismos financeiros para transformá-los em desenvolvimento sustentável, inclusão social e resiliência climática ainda não estão plenamente estruturados.

A transição ecológica, portanto, não é um tema ambiental secundário. Ela é, ou deveria ser, o maior projeto econômico e estratégico do Brasil no século XXI. E o financiamento é hoje o principal gargalo, mas também a maior oportunidade.

O que significa, na prática, financiar a transição ecológica

Financiar a transição ecológica vai muito além de rotular produtos como “verdes”. Trata-se de redirecionar fluxos de capital, públicos e privados, para atividades que promovam:

  • Mitigação das emissões de gases de efeito estufa;
  • Adaptação climática de cidades, territórios e sistemas produtivos;
  • Proteção e restauração de ecossistemas;
  • Inclusão social, justiça climática e desenvolvimento territorial.

É igualmente importante deixar claro o que não é financiamento da transição ecológica. Não se trata de subsídios indiscriminados, incentivos sem critérios ou operações que apenas maquiam práticas tradicionais com uma narrativa sustentável. Greenwashing financeiro não reduz emissões, não protege territórios e não constrói confiança no longo prazo.

É aqui que entram conceitos como taxonomias sustentáveis, critérios ESG consistentes, métricas de impacto e boa governança. Sem isso, o financiamento perde força e credibilidade.

O cenário brasileiro: avanços relevantes, entraves estruturais

Nos últimos anos, o Brasil avançou em pontos importantes. O sistema financeiro começou a incorporar, ainda que de forma desigual, a agenda climática e ESG. Instituições como o BNDES ampliaram sua atuação em finanças sustentáveis, apoiando energia renovável, infraestrutura verde e restauração ambiental.

Também houve crescimento de instrumentos como debêntures incentivadas, fundos temáticos ESG, operações de blended finance e maior interesse internacional em ativos brasileiros ligados à transição climática.

Ainda assim, os entraves são claros:

  • Alto custo de capital, especialmente para projetos territoriais e de menor escala;
  • Insegurança regulatória, que afasta investidores de longo prazo;
  • Escassez de projetos bem estruturados, sobretudo em municípios e no terceiro setor;
  • Concentração do crédito em grandes empresas e regiões mais desenvolvidas.

O resultado é um descompasso evidente: o capital existe, mas não chega com eficiência onde o impacto climático e social é mais urgente.

Instrumentos de financiamento: o problema não é a falta, é a coordenação

Do ponto de vista técnico, o Brasil já dispõe dos principais instrumentos para financiar a transição ecológica, entre eles:

  • Crédito público via bancos de desenvolvimento;
  • Financiamento privado e mercado de capitais;
  • Fundos climáticos internacionais e cooperação multilateral;
  • Mecanismos de blended finance;
  • Mercado de carbono, regulado e voluntário.

O desafio central não é a ausência desses instrumentos, mas a falta de coordenação estratégica, a baixa capacidade local de estruturar projetos e a ausência de uma visão integrada de longo prazo. Sem articulação, o financiamento se fragmenta, perde escala e não gera transformação sistêmica.

O papel estratégico do terceiro setor na arquitetura do financiamento climático

Nesse contexto, o terceiro setor assume um papel decisivo. Organizações da sociedade civil, fundações e institutos conseguem atuar onde o mercado, sozinho, não chega.

A Fundação Verde Herbert Daniel ilustra bem essa função. Ao atuar na interseção entre território, políticas públicas, governança e impacto socioambiental, a Fundação contribui para:

  • Estruturar projetos com integridade socioambiental;
  • Fortalecer capacidades locais;
  • Garantir transparência e boa governança;
  • Reduzir riscos para investidores e financiadores.

O terceiro setor não substitui o Estado nem o mercado. Ele conecta. E, na transição ecológica, essa ponte entre capital e impacto real faz toda a diferença.

Oportunidades estratégicas para o Brasil na transição ecológica

Apesar dos desafios, as oportunidades são concretas. Algumas frentes que podem e devem receber financiamento estruturado são:

Bioeconomia amazônica e dos biomas brasileiros

Com potencial de gerar renda, conservar a floresta e promover inclusão social, desde que financiada com justiça climática e protagonismo local.

Agricultura de baixo carbono

Tecnologias já disponíveis permitem reduzir emissões, aumentar produtividade e recuperar solos, mas exigem crédito acessível e assistência técnica.

Infraestrutura verde urbana

Mobilidade sustentável, saneamento, gestão de resíduos e adaptação climática nas cidades são áreas críticas e altamente financiáveis.

Energias renováveis e novas fronteiras energéticas

Solar, eólica, biomassa e hidrogênio verde podem colocar o Brasil na liderança global, desde que haja previsibilidade regulatória.

Adaptação climática

Talvez o tema mais negligenciado do financiamento climático, mesmo sendo onde os impactos já são mais sentidos.

Desafios que não podem mais ser adiados

Para que o financiamento avance de forma consistente, alguns pontos precisam ser enfrentados sem rodeios:

  • Fortalecer governança e integridade dos instrumentos financeiros;
  • Padronizar métricas e critérios de impacto;
  • Capacitar estados, municípios e organizações para estruturar projetos;
  • Garantir segurança jurídica e estabilidade regulatória;
  • Promover coordenação federativa e interinstitucional.

Sem isso, o risco não é apenas a falta de recursos, mas o mau direcionamento do capital, com baixo impacto real.

Conclusão – Financiamento é escolha política, econômica e ética

A transição ecológica não é uma questão técnica isolada. Ela é, acima de tudo, uma escolha política, econômica e ética. O capital global já entendeu que risco climático também é risco financeiro. O Brasil, por sua vez, tem uma oportunidade histórica de alinhar desenvolvimento, sustentabilidade e justiça social.

O financiamento existe. O interesse existe. Os ativos existem.

O que ainda falta é liderança estratégica, coerência institucional e visão de longo prazo.

Se bem conduzida, a transição ecológica pode deixar de ser vista como custo e se firmar como o principal motor do desenvolvimento sustentável do Brasil nas próximas décadas.

REFERÊNCIAS

  • BANCO MUNDIAL. Climate finance: investing in climate action. Washington, DC: World Bank Group, 2023. Disponível em: https://www.worldbank.org. Acesso em: 5 jan. 2026.
  • BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL (BNDES). Finanças sustentáveis e transição ecológica. Rio de Janeiro: BNDES, 2024. Disponível em: https://www.bndes.gov.br. Acesso em: 5 jan. 2026.
  • BRASIL. Ministério da Fazenda. Plano de Transformação Ecológica. Brasília: Ministério da Fazenda, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda. Acesso em: 5 jan. 2026.
  • BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Estratégia Nacional de Financiamento Climático. Brasília: MMA, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mma. Acesso em: 5 jan. 2026.
  • INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Financiamento climático no Brasil: desafios e oportunidades. Brasília: IPEA, 2022. Disponível em: https://www.ipea.gov.br. Acesso em: 5 jan. 2026.
  • ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD). Financing climate transitions: policy perspectives. Paris: OECD Publishing, 2022. Disponível em: https://www.oecd.org. Acesso em: 5 jan. 2026.
  • UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). Global climate finance outlook. Nairobi: UNEP, 2023. Disponível em: https://www.unep.org. Acesso em: 5 jan. 2026.
  • UNITED NATIONS FRAMEWORK CONVENTION ON CLIMATE CHANGE (UNFCCC). Standing Committee on Finance – Biennial Assessment and Overview of Climate Finance Flows. Bonn: UNFCCC, 2023. Disponível em: https://unfccc.int. Acesso em: 5 jan. 2026.
  • INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). World energy outlook 2023. Paris: IEA, 2023. Disponível em: https://www.iea.org. Acesso em: 5 jan. 2026.
  • INTERNATIONAL SUSTAINABILITY STANDARDS BOARD (ISSB). IFRS S1 and IFRS S2 – Sustainability-related disclosures. Londres: IFRS Foundation, 2023. Disponível em: https://www.ifrs.org. Acesso em: 5 jan. 2026.

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