ODS e a Agenda 2030: Legado, Desafios e Caminhos para o Brasil

Allan Moreno Magri
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos | Fundação Verde Herbert Daniel
Especialista em ESG, Sustentabilidade, Governança e Gestão Pública
Membro de comitês executivos ABNT/ISO (Ambiental, Auditoria, Governança e ESG)
LinkedIn: www.linkedin.com/in/allanmagri-esg

Introdução: Quando o tempo escasseia, a responsabilidade se intensifica

Em 2015, a comunidade internacional selou um compromisso ousado: repensar radicalmente as formas de produção, consumo, governança e cuidado com as pessoas e com o planeta, mirando o horizonte de 2030. Assim nascia a Agenda 2030, liderada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e estruturada em 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Em 2026, a realidade impõe outra perspectiva. Já não se trata de promessas ou intenções. Restam poucos anos para o prazo final, e a indagação mudou: não mais “o que são os ODS?”, mas “o que conseguimos realizar até aqui?”.

ODS: Mais que metas, uma arquitetura de futuro

Longe de representar uma tendência passageira ou um conjunto superficial de diretrizes, os ODS constituem uma referência estratégica global. Eles articulam de maneira integrada as dimensões econômica, social e ambiental do desenvolvimento sustentável.

Os 17 objetivos — desdobrados em 169 metas — abordam temas cruciais como erradicação da pobreza, segurança alimentar, justiça, ação climática, governança e cooperação internacional. Em sua essência, são um guia de sobrevivência coletiva diante de um planeta em colapso.

O principal diferencial da Agenda 2030 está em sua abordagem sistêmica. Não há desenvolvimento econômico duradouro sem equidade social. Tampouco é possível avançar na preservação ambiental sem estruturas institucionais sólidas. E justiça social sem governança eficaz é, no máximo, um ideal.

Agenda 2030: Compromisso voluntário, mas inadiável

Ainda persiste a percepção equivocada de que a Agenda 2030 tem caráter opcional. Embora não detenha força jurídica vinculante, ela se consolidou como referência obrigatória em diversos campos:

  • Formulação de políticas públicas;
  • Critérios de financiamento internacional;
  • Estratégias ESG;
  • Relatórios de sustentabilidade;
  • Diretrizes de investimentos e avaliação de riscos.

Ignorar os ODS não é sinônimo de autonomia institucional — é, na verdade, sinônimo de desalinhamento com as demandas globais.

O Brasil e os ODS: Entre o potencial e a inconsistência

O Brasil tem se destacado historicamente nos debates internacionais sobre sustentabilidade. A rica biodiversidade, a matriz energética relativamente limpa, a experiência acumulada em políticas sociais e o peso geopolítico conferem ao país uma posição privilegiada.

Entretanto, protagonismo discursivo não se traduz automaticamente em resultados práticos.

A implementação da Agenda 2030 no Brasil revela um cenário marcado por contrastes. Há avanços importantes, mas também retrocessos preocupantes. Exemplos ilustrativos incluem:

  • ODS 13 (Ação Climática): Apesar de avanços normativos e compromissos assumidos, há falhas significativas na aplicação local.
  • ODS 10 (Redução das Desigualdades): Políticas públicas relevantes foram descontinuadas ou fragmentadas ao longo dos anos.
  • ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes): Um dos objetivos mais negligenciados, embora seja pilar estruturante para os demais.

Sem governança eficaz, os ODS tendem a se restringir ao papel de adornos institucionais em documentos formais.

ODS, ESG e governança: Convergência necessária

A crescente articulação entre a Agenda 2030 e a pauta ESG não é coincidência: trata-se de uma convergência natural. O ESG representa a operacionalização dos ODS no âmbito empresarial e institucional.

  • E (ambiental) conecta-se a temas como clima, água, energia e biodiversidade.
  • S (social) articula-se com trabalho decente, inclusão, saúde e educação.
  • G (governança) está intrinsecamente vinculado ao ODS 16 e à qualidade institucional.

A distorção ocorre quando tanto ESG quanto ODS são reduzidos a estratégias de marketing. Sem indicadores, metas e responsabilização, perdem consistência e credibilidade.

O erro recorrente: Tratar os ODS como agenda acessória

Uma falha recorrente observada em organizações públicas, privadas e do terceiro setor é considerar os ODS como um programa paralelo, algo como “mais uma comissão a ser criada”.

Esse modelo é ineficaz.

Para que os ODS gerem impacto real, precisam ser incorporados:

  • Ao planejamento estratégico;
  • À alocação orçamentária;
  • À definição de indicadores de desempenho;
  • Aos processos decisórios;
  • À análise de riscos e oportunidades.

Em resumo, os ODS não devem ser vistos como um acréscimo. São critérios fundamentais de excelência na gestão.

O papel do setor público: Articulação e coerência

No âmbito governamental, a efetivação da Agenda 2030 exige, antes de tudo, coordenação.

Políticas públicas fragmentadas comprometem o desenvolvimento sustentável. É necessário integrar:

  • O planejamento plurianual (PPA);
  • O orçamento público;
  • As políticas setoriais;
  • Os indicadores de impacto.

Sem essa integração, os ODS correm o risco de se tornarem apenas boas intenções disfarçadas de políticas públicas.

Empresas: De discursos a estratégias concretas

O setor privado precisa compreender que os ODS não se confundem com filantropia. Eles representam uma abordagem inteligente de gestão de riscos e de inovação estratégica.

Empresas que alinham seu modelo de negócio à Agenda 2030 tendem a:

  • Acessar melhores condições de financiamento;
  • Mitigar riscos regulatórios e reputacionais;
  • Fomentar inovação de forma consistente;
  • Atrair talentos e investidores.

Sustentabilidade não é custo — é visão de futuro. Quem enxerga o contrário, ainda olha pelo retrovisor.

Terceiro setor: Articulação entre base social e políticas públicas

Organizações da sociedade civil têm papel decisivo na territorialização dos ODS. São elas que:

  • Alcançam populações e territórios onde o Estado não chega;
  • Experimentam soluções inovadoras;
  • Produzem dados e evidências;
  • Fortalecem lideranças locais.

No entanto, isso requer profissionalismo, transparência e mecanismos de avaliação. Boa gestão é tão imprescindível quanto boa intenção.

2030 se aproxima: E agora?

Com a proximidade do marco final da Agenda 2030, o cenário exige mudança de postura.

Chegou o momento de abandonar generalidades e adotar:

  • Metas objetivas e mensuráveis;
  • Mecanismos claros de prestação de contas;
  • Hierarquização de prioridades;
  • Decisões baseadas em evidências.

Não será possível alcançar todos os objetivos. Mas é possível — e necessário — fazer escolhas estratégicas e eficazes.

Conclusão: Os ODS como espelho da nossa maturidade coletiva

Mais do que uma linha de chegada, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável representam um teste da nossa capacidade de aprender com as crises — climáticas, institucionais, sociais — e transformar conhecimento em ação.

A Agenda 2030 não é perfeita, mas ainda é o instrumento mais robusto de que dispomos para evitar a repetição ampliada dos erros que nos trouxeram até aqui.

O tempo é curto. E, desta vez, a postergação não é uma opção.

Referências

  • Organização das Nações Unidas. Transforming our world: the 2030 Agenda for Sustainable Development
  • Relatórios de Progresso dos ODS – ONU (2019–2024)
  • PNUD Brasil. ODS no Brasil: desafios e perspectivas
  • World Economic Forum. Global Risks Report (edições recentes)

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