Por ✍️ Allan Moreno Magri
Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos – Fundação Verde Herbert Daniel
Membro de comitês executivos ABNT/ISO (Ambiental, Governança e ESG)
🔗https://www.linkedin.com/in/allanmagri-esg
INTRODUÇÃO:
Quando falamos em eleições no Brasil, é comum que os holofotes se voltem exclusivamente para a corrida presidencial. No entanto, essa centralidade do Executivo no imaginário popular costuma ofuscar o papel determinante de outro poder: o Legislativo. Essa omissão não é apenas simbólica — é estrutural. E, no contexto da agenda ambiental, pode custar muito caro.
Grande parte das decisões que moldam o futuro da Amazônia, da biodiversidade, das políticas climáticas e dos direitos de povos tradicionais passa, direta ou indiretamente, pelo Congresso Nacional. É ali que leis são criadas ou desfiguradas, que orçamentos são definidos (ou cortados), e que a governança ambiental brasileira ganha corpo — ou é minada.
Com as eleições de 2026 se aproximando, é urgente ampliar o debate para além da figura presidencial. Precisamos voltar o olhar, com seriedade e responsabilidade, para a composição do Parlamento. Afinal, a qualidade do Congresso eleito será decisiva para definir não apenas que tipo de país seremos nos próximos quatro anos, mas que legado ambiental deixaremos para as próximas gerações.
O Congresso como epicentro da política ambiental
Embora não receba a atenção proporcional à sua importância, o Congresso Nacional é o centro nervoso da política ambiental brasileira. Todas as decisões estruturantes — desde a definição do Código Florestal até a aprovação de acordos internacionais sobre clima — passam por suas comissões e plenários.
Temas cruciais são decididos ali, como:
* Licenciamento ambiental e suas exigências técnicas
* Demarcação de terras indígenas e quilombolas
* Políticas de adaptação às mudanças climáticas
* Regras para exploração mineral, expansão do agronegócio e grandes obras de infraestrutura
* Compromissos internacionais, como o Acordo de Paris
* Orçamentos para IBAMA, ICMBio, INPE e demais órgãos de fiscalização
Além disso, parlamentares possuem o poder de:
* Alterar profundamente os textos técnicos de projetos de lei
* Atrasar ou acelerar votações estratégicas conforme interesses de bancada
* Vincular avanços socioambientais à liberação de emendas parlamentares
* Aprovar medidas que, na prática, enfraquecem o aparato de proteção ambiental
Portanto, sem um Congresso minimamente comprometido com uma agenda sustentável e baseada em evidências, nenhum avanço real será duradouro — mesmo que o Executivo apresente bons projetos ou firme compromissos internacionais.
Retrocessos legislativos: lições aprendidas (ou ignoradas)
Nos últimos anos, vimos uma série de decisões parlamentares que trouxeram consequências negativas concretas para o meio ambiente e para a imagem internacional do Brasil. Não se trata de abstrações, mas de fatos mensuráveis:
- Flexibilização do licenciamento ambiental**, reduzindo critérios técnicos e restringindo a participação social
- Tentativas reiteradas de anistiar desmatadores e grileiros**, enfraquecendo o princípio da responsabilização
- Cortes sistemáticos no orçamento de órgãos ambientais**, comprometendo sua capacidade operacional
- Investidas contra os direitos territoriais de povos indígenas e comunidades quilombolas**, muitas vezes associadas à expansão de atividades econômicas predatórias
- Paralisação de políticas de adaptação climática**, mesmo após eventos extremos como enchentes, estiagens e deslizamentos
Essas decisões contribuíram diretamente para:
- O aumento do desmatamento, sobretudo na Amazônia Legal
- O crescimento de conflitos fundiários e violência no campo
- A deterioração da segurança jurídica em áreas de interesse socioambiental
- O agravamento da vulnerabilidade de comunidades tradicionais
- O comprometimento da imagem internacional do Brasil em negociações climáticas e comerciais
- O Congresso não é mero espectador dos retrocessos ambientais — ele tem sido, muitas vezes, protagonista.
Votar mal tem custo — e ele chega rápido
Votar mal em eleições legislativas não é apenas um erro político. É um ato que gera custos sociais, econômicos, ambientais e diplomáticos reais. E esses custos não se manifestam em décadas — muitos surgem já no primeiro ano de mandato.
Efeitos econômicos:
- Perda de investimentos estrangeiros** ligados à economia verde e ESG
- Criação de barreiras comerciais** por parte de parceiros que exigem padrões ambientais mínimos
- Restrição ao acesso de financiamentos sustentáveis**, como os “green bonds” internacionais
Impactos climáticos e infraestruturais:
- Aumento da frequência e intensidade de desastres naturais (enchentes, secas, incêndios)
- Colapso de estruturas públicas e produtivas em áreas vulneráveis
- Fragilização do setor agrícola, especialmente da agricultura familiar
Consequências sociais:
- Intensificação da desigualdade territorial
- Ataques sistemáticos a povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas
- Ampliação da vulnerabilidade de populações urbanas periféricas
Repercussão internacional:
- Isolamento do Brasil em fóruns multilaterais
- Erosão da credibilidade em compromissos climáticos
- Fragilização do papel geopolítico brasileiro como liderança ambiental no Sul Global
O que, de fato, deve guiar o voto ambiental em 2026?
Não podemos mais aceitar discursos vagos como “sou a favor da natureza” ou “me preocupo com o meio ambiente”. A pauta ambiental exige compromisso real, embasado em ciência, políticas públicas consistentes e coragem institucional.
Alguns critérios mínimos que devem nortear o eleitor consciente:
Sustentabilidade baseada em ciência
- Apoio irrestrito ao uso de dados oficiais, como os do INPE
- Comprometimento com metas climáticas mensuráveis
- Enfrentamento ao negacionismo ambiental e à desinformação
Justiça socioambiental
- Defesa dos direitos territoriais de povos indígenas e tradicionais
- Combate ao racismo ambiental
- Adoção de políticas de mitigação e adaptação que priorizem os mais vulneráveis
Democracia e transparência
- Fortalecimento do licenciamento com controle social efetivo
- Transparência nas decisões que afetam territórios e populações
- Respeito às instituições e ao Estado de Direito
Soberania com responsabilidade
- Reconhecimento da Amazônia como ativo estratégico — e não como espaço de exploração irrestrita
- Incentivo à bioeconomia, inovação e ciência como pilares do desenvolvimento
- Rejeição de modelos econômicos baseados em exportação predatória de recursos brutos
O eleitor tem o poder — e a responsabilidade
A etapa mais decisiva começa agora: a escolha consciente. Cada eleitor tem o direito (e o dever) de interpelar os candidatos sobre seu histórico, seus compromissos e sua visão ambiental. Algumas perguntas essenciais:
- Como você votou em projetos ambientais nos últimos anos?
- Qual sua posição sobre o licenciamento ambiental?
- Você defende recursos adequados para órgãos de fiscalização?
- Reconhece a emergência climática?
- Quais projetos você pretende apresentar ou apoiar no Congresso?
Candidatos que evitam responder, que tergiversam, que atacam a ciência ou que enxergam o meio ambiente como entrave ao desenvolvimento, estão — mesmo sem dizer — deixando claro seu posicionamento.
2026 não é apenas mais uma eleição. É um ponto de inflexão.
Chegamos a 2026 pressionados por uma série de fatores simultâneos:
- Acelerada crise climática
- Aumento da cobrança internacional por compromissos ambientais sérios
- Ocorrência repetida de eventos extremos em todo o território nacional
- Disputa global por recursos estratégicos e por modelos de transição energética justa
O Congresso que será eleito atuará durante um dos períodos mais críticos da história ambiental brasileira.
Ou construímos:
- Leis que protegem,
- Orçamentos que sustentam,
- Políticas que planejam o futuro,
Ou continuaremos operando de forma reativa, apagando incêndios — literalmente e institucionalmente.
Conclusão: votar é um ato ambiental
Cuidar do meio ambiente vai muito além de gestos individuais como reciclar ou reduzir o uso de plástico. Trata-se de um compromisso político e coletivo.
O Congresso decide:
* O que pode ser destruído
* O que será preservado
* Quem terá voz
* Quem será silenciado
Em 2026, cada voto dado a um deputado ou senador será um voto:
✅ Pela Amazônia — ou contra ela
✅ Pelo clima — ou pelo colapso
✅ Pelo futuro — ou pela estagnação
Que abandonemos, de uma vez por todas, o hábito de votar no escuro. O Brasil — e o planeta — já não suportam mais os custos da omissão.
Fontes e referências:
- IPCC – Sixth Assessment Report (AR6)
- INPE – PRODES / DETER
- OCDE – *Environmental Performance Reviews: Brazil*
- FAO – *State of the World’s Forests*
- Observatório do Clima – Análises legislativas e orçamentárias