ESCOLAS DE SAMBA COMO UNIVERSIDADES POPULARES: MEMÓRIA, DENÚNCIA E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

Por Allan Magri

Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança

Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos

Fundação Verde Herbert Daniel

🔗 linkedin.com/in/allanmagri-esg

RESUMO

Este artigo analisa o papel das escolas de samba brasileiras como instituições de educação popular, destacando sua relevância na preservação da memória coletiva, na denúncia de injustiças sociais e na promoção da formação cidadã. Por meio de uma abordagem qualitativa e interpretativa, identifica-se como o samba-enredo atua como instrumento de comunicação política, educativa e cultural. Argumenta-se que as escolas de samba constituem verdadeiras “universidades populares”, organizando saberes intergeracionais e contribuindo para a transformação social no Brasil contemporâneo.

INTRODUÇÃO

As escolas de samba, tradicionalmente vinculadas ao universo do entretenimento carnavalesco, exercem funções que extrapolam o campo da cultura lúdica. No contexto brasileiro, essas agremiações se configuram como espaços de produção e transmissão de conhecimento, memória e identidade, constituindo, de fato, universidades populares que formam sujeitos críticos por meio de práticas artísticas e coletivas.

O presente artigo tem por objetivo refletir sobre o potencial formativo das escolas de samba, evidenciando sua atuação como agentes educativos não formais que articulam saberes históricos, políticos, ambientais e sociais. Para isso, parte-se de uma análise das práticas simbólicas, pedagógicas e discursivas que essas instituições promovem a partir de seus desfiles e atividades comunitárias.

ESCOLAS DE SAMBA E A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA COLETIVA

As origens das escolas de samba remontam ao início do século XX, principalmente em territórios negros e periféricos do Rio de Janeiro. A partir de contextos de exclusão, essas agremiações desenvolveram formas coletivas de resistência cultural, organizando acervos vivos de memórias silenciadas, identidades marginalizadas e narrativas históricas não hegemônicas.

A quadra funciona como espaço de aprendizagem e convivência; o barracão, como laboratório de experimentação artística e técnica; e o desfile, como tese pública apresentada à sociedade. Exemplos emblemáticos como a Estação Primeira de Mangueira e a Portela ilustram esse papel, ao desenvolverem enredos com forte densidade histórica e crítica social.

O SAMBA-ENREDO COMO FORMA DE DENÚNCIA SOCIAL

O samba-enredo opera como uma linguagem de resistência, transformando temáticas complexas em narrativas acessíveis e emocionais. Questões como racismo estrutural, desigualdade, violência de Estado, colonialismo e devastação ambiental são recorrentemente abordadas, com grande impacto pedagógico.

O desfile da Mangueira em 2019 é um marco nesse sentido, ao reposicionar figuras negras, indígenas e periféricas no centro da história oficial brasileira. Já a Beija-Flor destacou-se por seus enredos de denúncia política e social, questionando estruturas de poder com contundência estética e simbólica.

JUSTIÇA CLIMÁTICA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL POPULAR

Nos últimos anos, temas ambientais passaram a ocupar papel central nos desfiles das escolas de samba. O enredo torna-se ferramenta de educação ambiental, abordando de forma integrada temas como desmatamento, racismo ambiental, acesso à água e à cidade, e os efeitos das mudanças climáticas sobre populações vulnerabilizadas.

As escolas estabelecem uma conexão direta entre questões ecológicas e sociais, traduzindo em linguagem popular o que muitas vezes é tratado de forma fragmentada em relatórios técnicos. Assim, constroem uma pedagogia ambiental enraizada na realidade das comunidades.

TRANSMISSÃO INTERGERACIONAL E FORMAÇÃO CIDADÃ

A transmissão de saberes no universo das escolas de samba ocorre de forma intergeracional e comunitária. Crianças e jovens aprendem com os mais velhos não apenas técnicas artísticas, mas valores éticos, identitários e históricos. Essa dinâmica forma sujeitos comprometidos com o território, a memória e a coletividade.

Mesmo sem diplomas formais, há método, avaliação e responsabilidade compartilhada. Trata-se de um processo educativo integral que fortalece vínculos sociais, gera pertencimento e contribui para a construção da cidadania.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As escolas de samba são, inequivocamente, espaços de produção de conhecimento e de formação política e cultural. Sua valorização como universidades populares implica reconhecer que a educação pode — e deve — ocorrer também fora dos muros institucionais, enraizada nas práticas culturais do povo.

Ao preservar memórias, denunciar injustiças e educar por meio da arte, essas agremiações tornam-se fundamentais para a democracia, a justiça social e a construção de um Brasil mais plural e consciente.

REFERÊNCIAS

BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS. Histórico de enredos e temáticas sociais. Disponível em: [https://www.beija-flor.com.br](https://www.beija-flor.com.br)

Acesso em: 15 jan. 2026.

IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Registro do Samba como Patrimônio Cultural do Brasil. Brasília: IPHAN, 2007.

LOPES, Nei. *Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana*. São Paulo: Selo Negro, 2004.

MUNIZ SODRÉ, Muniz. *Samba, o dono do corpo*. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

OBSERVATÓRIO DO CLIMA. Justiça Climática no Brasil. Disponível em: [https://www.oc.eco.br](https://www.oc.eco.br)

Acesso em: 18 jan. 2026.

UNESCO. *Cultura e Patrimônio Imaterial*. Paris: UNESCO, 2020.

+ Conteúdos

Entenda o que é redução de danos, como funciona no Brasil e no mundo, e por que é a política de drogas que mais salva vidas hoje....
Acordo UE-Mercosul: oportunidade ou ameaça ambiental? Análise crítica sobre impactos na Amazônia, desigualdades e sustentabilidade genuína....
ODS e Agenda 2030 no Brasil: analise o legado, desafios e caminhos para o desenvolvimento sustentável. Entenda a importância para empresas e governos....

Artigos em Opinião