Allan Moreno Magri
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos – Fundação Verde Herbert Daniel
Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança
www.linkedin.com/in/allanmagri-esg
Durante muito tempo, o Partido Verde (PV) foi visto no Brasil como um partido de causa — quase um sinônimo de pauta ambiental. Essa leitura não está errada, mas está incompleta. E, mais do que isso, está desatualizada.
O mundo mudou. E com ele, mudou também o significado da sustentabilidade.
Hoje, discutir meio ambiente não é mais falar apenas de preservação. É falar de economia, competitividade, inovação, segurança e posicionamento global. É falar, no fundo, de futuro.
Nesse novo contexto, surge uma pergunta inevitável: o Partido Verde está preparado para deixar de ser um partido de nicho e se tornar um partido de projeto de país?
Essa não é apenas uma questão política. É uma questão estratégica para o Brasil.
A sustentabilidade deixou de ser periférica
Durante décadas, a agenda ambiental ocupou um espaço secundário nas decisões econômicas e políticas. Era tratada como importante, mas não urgente. Relevante, mas não estruturante.
Esse cenário não existe mais.
A transição energética está redefinindo mercados inteiros. A descarbonização passou a ser critério de competitividade. A segurança alimentar se tornou pauta global. E as mudanças climáticas deixaram de ser previsão para se tornarem realidade concreta.
Hoje, empresas, países e blocos econômicos estão reorganizando suas estratégias com base nesses fatores.
Isso muda tudo.
A sustentabilidade deixou de ser um tema isolado. Ela passou a influenciar diretamente crescimento econômico, geração de empregos, atração de investimentos e inserção internacional.
E quem não entender isso, simplesmente ficará para trás.
O Brasil: um país com vantagens que poucos têm
O Brasil ocupa uma posição singular nesse novo cenário global.
Poucos países combinam, ao mesmo tempo:
- Uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo
- A maior biodiversidade do planeta
- Uma das agriculturas mais produtivas do mundo
Isso não é trivial. Isso é poder estratégico.
Enquanto muitos países enfrentam enormes custos para se adaptar à economia de baixo carbono, o Brasil já parte de uma posição privilegiada.
Mas há um problema.
O país ainda não transformou essas vantagens em um projeto nacional claro.
Temos ativos. Falta direção.
O verdadeiro desafio: organização estratégica
O Brasil não sofre por falta de potencial. Sofre por falta de articulação.
Desigualdade social persistente, baixa produtividade, desindustrialização e fragilidade na coordenação de políticas públicas mostram que o problema não está no que temos — mas no que fazemos com o que temos.
E é exatamente aqui que entra o papel de um partido com visão de país.
Um partido relevante no século XXI não pode se limitar a pautas isoladas. Ele precisa organizar uma visão integrada de desenvolvimento.
E essa é a oportunidade histórica do Partido Verde.
O que significa ser um “partido de projeto de país”?
Significa ir além da defesa de causas.
Significa propor caminhos.
Significa conectar economia, meio ambiente, tecnologia e inclusão social em uma mesma estratégia.
No caso do PV, isso não exige abandonar sua identidade. Pelo contrário: exige expandi-la.
A agenda ambiental, hoje, é justamente o ponto de partida mais poderoso para estruturar um projeto de país moderno.
E esse projeto pode ser organizado em alguns eixos centrais.
1. Transição energética: liderança não acontece por acaso
O mundo está migrando, rapidamente, para uma economia de baixo carbono.
Isso não é tendência — é direção.
E o Brasil tem tudo para liderar esse movimento. Mas liderança não é automática. Ela precisa ser construída.
Isso exige:
- Planejamento de longo prazo
- Segurança regulatória
- Investimentos em inovação
- Coordenação entre Estado e setor privado
O Partido Verde pode assumir um papel central aqui: não apenas como defensor da energia limpa, mas como articulador de políticas que transformem vantagem natural em liderança econômica real.
E mais importante: garantindo que essa transição seja justa, sem deixar trabalhadores e regiões para trás.
2. Bioeconomia: a Amazônia como ativo estratégic
A Amazônia costuma ser vista sob duas lentes: preservação ou exploração.
Essa dicotomia é limitada.
Existe um terceiro caminho — e talvez o mais promissor: a bioeconomia.
Trata-se de transformar biodiversidade em valor econômico, de forma sustentável, com base em ciência, inovação e inclusão social.
Isso envolve:
- Cadeias produtivas sustentáveis
- Biotecnologia
- Valorização de saberes locais
- Integração com comunidades
O desafio não é apenas proteger a floresta.
É torná-la economicamente viável em pé.
E esse pode ser um dos maiores diferenciais competitivos do Brasil no século XXI.
3. Reindustrialização verde: uma nova indústria para um novo mundo
O Brasil perdeu espaço industrial nas últimas décadas.
Mas a transição ecológica abre uma nova janela de oportunidade.
Uma nova indústria está emergindo — baseada em:
- Eficiência energética
- Economia circular
- Baixa emissão de carbono
- Inovação tecnológica
Isso não é apenas uma pauta ambiental. É uma estratégia de desenvolvimento.
Um projeto de país orientado pela sustentabilidade não enfraquece a indústria. Ele a reposiciona.
E o Partido Verde pode ser protagonista nessa reconstrução, conectando política industrial com agenda ambiental.
4. Governança: sem execução, não há transformação
Nenhuma estratégia funciona sem capacidade de execução.
O Brasil avançou em marcos regulatórios importantes, mas ainda enfrenta dificuldades em implementar políticas de forma eficiente e coordenada.
Governança não é um detalhe técnico. É um fator decisivo.
Ela envolve:
- Transparência
- Segurança jurídica
- Capacidade institucional
- Qualidade das decisões públicas
Ao incorporar esses princípios, o PV pode contribuir para reduzir incertezas, melhorar o ambiente de negócios e aumentar a efetividade das políticas públicas.
5. Segurança alimentar: produção com responsabilidade
O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo.
Mas ainda convive com desigualdade no acesso à alimentação de qualidade.
Esse paradoxo precisa ser enfrentado.
A integração entre:
- Agricultura sustentável
- Inovação tecnológica
- Práticas agroecológicas
permite aumentar produtividade e, ao mesmo tempo, reduzir impactos ambientais.
Aqui, o papel do PV pode ser o de ponte — conectando produção, sustentabilidade e inclusão.
O fator geopolítico: o mundo está olhando
A agenda climática está redefinindo a geopolítica global.
Países que conseguirem alinhar desenvolvimento econômico com sustentabilidade terão vantagem competitiva e maior influência internacional.
O Brasil tem todas as condições de ocupar esse espaço.
Mas isso depende de coerência.
Não basta discurso. É preciso entrega.
Políticas consistentes, metas claras e capacidade de implementação são o que transformam potencial em protagonismo.
E o Partido Verde pode ser um dos vetores dessa coerência.
O maior desafio: sair do nicho
Talvez o principal obstáculo do PV não seja técnico — seja político.
Partidos temáticos tendem a falar para quem já concorda com eles.
Mas um partido de projeto de país precisa falar com todos.
Isso inclui:
- Setor produtivo
- Trabalhadores
- Gestores públicos
- Sociedade em geral
E isso exige uma mudança de narrativa.
Sustentabilidade não pode ser apresentada como:
- Restrição
- Custo
- Ideologia
Ela precisa ser apresentada como:
- Oportunidade
- Investimento
- Estratégia
Essa mudança de linguagem é tão importante quanto a mudança de posicionamento.
O Brasil precisa de direção
O país já demonstrou, em outros momentos, capacidade de construir projetos nacionais ambiciosos.
O que falta hoje não é capacidade.
É direção.
Direção para organizar potencial.
Direção para enfrentar desafios.
Direção para competir em um mundo que está mudando rapidamente.
Uma oportunidade histórico
O Partido Verde está diante de uma escolha estratégica.
Pode continuar sendo percebido como um partido de nicho.
Ou pode se consolidar como um partido de projeto de país.
Isso significa:
- Sair da posição de defensor de causas
- Assumir o papel de formulador de soluções
- Construir uma visão integrada de desenvolvimento
Não é um movimento simples. Exige:
- Qualificação técnica
- Produção de conhecimento
- Articulação política
- Capacidade de diálogo
Mas é um movimento necessário.
Conclusão: sustentabilidade é estratégia
No fim das contas, a grande mudança é conceitual.
Sustentabilidade não é mais uma pauta.
É uma estratégia.
E talvez seja a estratégia mais importante do século XXI.
O futuro do Brasil será definido pela forma como o país lida com essa agenda.
E o Partido Verde tem todas as condições de estar no centro dessa construção.
A questão é: vai assumir esse papel?
Referências:
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Plano Nacional sobre Mudança do Clima. Brasília: MMA, 2023.
BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL (BNDES). Bioeconomia e desenvolvimento sustentável no Brasil. Rio de Janeiro: BNDES, 2022.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Transição ecológica e desenvolvimento no Brasil. Brasília: IPEA, 2023.
EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA). Agricultura sustentável e segurança alimentar. Brasília: EMBRAPA, 2022.
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2023: Synthesis Report. Geneva: IPCC, 2023.
INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). World Energy Outlook 2023. Paris: IEA, 2023.