Herbert Daniel e a interseccionalidade que o Brasil ainda não aprendeu

Meio ambiente, diversidade, raça e classe: uma luta única que o Brasil insiste em separar 

Escrito por Allan Magri

Allan Magri

Gestor Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos em ESG e Sustentabilidade | Fundação Verde Herbert Daniel | Coordenador do Depto. de Meio Ambiente – IPI | Membro de Comitês ABNT/ISO Nacional e Internacional | Analista de Processos – BRASFI

LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/allanmagri-esg

Há nomes que o tempo testa. Que o debate público desgasta, reduz a uma frase ou a uma data comemorativa — e que, mesmo assim, resistem. Herbert Daniel é um desses nomes. Quarenta anos depois de suas reflexões mais incisivas, o Brasil ainda tropeça exatamente nas mesmas contradições que ele apontava.

Militante da resistência à ditadura militar, escritor, ecologista e ativista LGBTQIA+, Herbert Daniel construiu uma trajetória política e intelectual que, para os padrões da época, era simplesmente improvável. Não porque faltasse coragem — dessa havia de sobra. Mas porque ele recusava as fronteiras que o debate público tentava impor entre as lutas sociais. Para ele, não existia hierarquia entre pautas. Existia uma estrutura de opressão que se manifestava de formas diferentes sobre grupos diferentes — e que só poderia ser desafiada de forma integrada.

Conceitos como interseccionalidade, justiça climática ou ESG ainda não existiam no vocabulário institucional quando ele escrevia. Mas a substância estava lá, formulada com uma clareza que desconforta quem lê hoje e percebe o quanto o debate avançou no nome e pouco avançou na prática.

O Dia Internacional contra a LGBTfobia, celebrado em 17 de maio, é uma dessas datas que convida a mais do que memória. Convida à honestidade sobre o que foi construído, o que ficou pelo caminho e o que ainda está por fazer.

Uma trajetória fora do padrão

Herbert Daniel nasceu em Minas Gerais e chegou à vida pública pela via mais dura possível: a resistência ao regime militar. Integrou organizações clandestinas, viveu períodos de clandestinidade e exílio — e saiu desse processo não como alguém endurecido pela política, mas como alguém que havia aprofundado sua compreensão sobre o que significa, de fato, uma sociedade livre.

Com a redemocratização, ele não se acomodou no espaço que a política tradicional reserva para os ex-combatentes. Seguiu escrevendo, questionando, organizando. Tornou-se uma das vozes mais ativas do ambientalismo brasileiro num momento em que essa pauta ainda era tratada, em muitos círculos progressistas, como secundária diante das disputas econômicas. E tornou-se, simultaneamente, uma referência na luta pelos direitos da população LGBTQIA+ — num país em que essas duas posições, juntas, causavam estranhamento em praticamente todos os espectros políticos.

Essa combinação não era acidental. Era a expressão de uma visão de mundo coerente: para Herbert Daniel, a destruição ambiental, a concentração de poder, a exclusão social e a violência contra minorias não eram problemas paralelos. Eram sintomas da mesma doença.

Ecologia social: o nome que ele deu ao que o Brasil ainda não pratica

Herbert Daniel usava o conceito de ecologia social para descrever uma visão que hoje chamaríamos de sistêmica: a ideia de que sociedade, economia, natureza, política e direitos humanos não podem ser analisados em compartimentos separados. O que acontece com o território afeta as comunidades. O que acontece com as comunidades afeta a democracia. O que acontece com a democracia afeta o meio ambiente. Não há como puxar um fio sem mexer na teia.

Essa visão confrontava dois equívocos que, olhando para 2026, continuam vivos. O primeiro: a tendência de setores ambientalistas de tratar a pauta ecológica sem discutir desigualdade social — como se fosse possível defender florestas sem falar de quem vive nelas e ao redor delas, e em que condições. O segundo: a tendência de setores progressistas de relegar as pautas ambientais e de diversidade a um segundo plano, priorizando as disputas econômicas como se estas fossem mais concretas ou mais urgentes.

Herbert Daniel via essas separações como um erro — não apenas moral, mas estratégico. Porque a realidade não respeita essas divisões. A crise climática não distribui seus efeitos de forma igual. As enchentes atingem primeiro as periferias. A insegurança alimentar se aprofunda entre as famílias mais pobres. A ausência de saneamento básico é, no Brasil, majoritariamente um problema de populações negras e vulneráveis. A exclusão econômica recai de forma desproporcional sobre mulheres, jovens periféricos e pessoas LGBTQIA+.

Quando se fragmenta o diagnóstico, as políticas resultantes são inevitavelmente incompletas. E políticas incompletas, no campo da sustentabilidade e dos direitos humanos, têm um custo que se mede em vidas.

O Brasil que ainda fragmenta o que deveria integrar

Seria reconfortante dizer que o Brasil de 2026 superou esse problema. Não superou.

O conceito de interseccionalidade ganhou espaço acadêmico e, mais recentemente, institucional. A agenda ESG incorporou ao menos no discurso as dimensões sociais e de governança. O debate sobre justiça climática chegou ao vocabulário de organismos internacionais e, com a COP30 em Belém, ao centro da agenda global. São avanços reais. Mas a aplicação prática dessas ideias ainda encontra barreiras estruturais significativas.

Sustentabilidade ainda é tratada, em boa parte das organizações, como sinônimo de agenda ambiental — uma área à parte, com seu próprio relatório e seus próprios indicadores, desconectada das decisões de negócio, de contratação e de território. Diversidade aparece como política de inclusão institucional — um programa, um comitê, uma meta de representatividade —, raramente como mudança estrutural nas relações de poder. Questões raciais seguem confinadas em debates específicos, sem atravessar a formulação de políticas públicas de forma transversal.

O resultado é uma atuação fragmentada que produz resultados fragmentados. Fala-se de clima sem falar de pobreza. Fala-se de inclusão sem alterar quem decide. Fala-se de ESG sem questionar o modelo de desenvolvimento que gerou os problemas que o ESG pretende mitigar.

Herbert Daniel já apontava esse problema décadas atrás. O fato de que o apontamento continua necessário não é apenas um sinal de lentidão histórica. É um convite à autocrítica — das instituições, dos gestores e dos que trabalham com sustentabilidade e direitos humanos todos os dias.

AIDS, dignidade e a política que se recusou a esperar

A atuação de Herbert Daniel durante a epidemia de HIV/AIDS merece atenção especial — não como curiosidade biográfica, mas como exemplo de consistência política.

Nos anos 1980 e início dos anos 1990, o Brasil vivia um período em que o preconceito, com frequência, substituía as políticas públicas. Pessoas vivendo com HIV eram tratadas pelo Estado e pela sociedade como um problema moral, não como sujeitos de direitos. A desinformação era sistematicamente instrumentalizada para justificar a inação.

Herbert Daniel respondeu a esse cenário da única forma que conhecia: com clareza e sem recuo. Defendeu o acesso universal à saúde, o combate ao estigma e uma política humanizada de enfrentamento da epidemia — num momento em que essas posições tinham um custo social e político concreto. Mais uma vez, ele conectava o que outros insistiam em separar: saúde pública, direitos humanos, democracia e desigualdade são dimensões de uma mesma questão.

Ele morreu em 1992, vítima de complicações relacionadas à AIDS. Tinha 47 anos. O que ficou não foi apenas o registro histórico de um ativista corajoso. Ficou uma forma de pensar que o tempo não conseguiu tornar obsoleta.

Por que 2026 ainda precisa dele

A pergunta legítima é: o que um intelectual e ativista morto há mais de trinta anos tem a dizer ao Brasil de hoje?

A resposta está menos no que ele disse e mais no que ele sinalizou: que as crises não são independentes. Que tratar meio ambiente, desigualdade, diversidade e democracia como agendas separadas é, na melhor das hipóteses, ineficiência — e, na pior, cumplicidade com a manutenção de estruturas que beneficiam poucos e excluem muitos.

Em 2026, o mundo discute transição ecológica, bioeconomia, taxonomia sustentável, finanças climáticas. São debates necessários e urgentes. Mas correm o risco de repetir o mesmo equívoco que Herbert Daniel criticava: propor soluções técnicas para problemas que são, antes de tudo, políticos. A crise climática tem componentes técnicos, sim. Mas sua raiz é distributiva. É sobre quem produz, quem consome, quem lucra e quem paga a conta — em dinheiro, em saúde, em território e em dignidade.

Nenhuma métrica de carbono resolve isso sozinha. Nenhum relatório ESG, por mais robusto que seja, muda estruturas de poder se não vier acompanhado de vontade política e de participação real das comunidades mais afetadas.

Herbert Daniel compreendia isso antes que existissem os instrumentos que usamos hoje para tentar medi-lo. Essa antecipação não é detalhe biográfico. É argumento.

O que significa carregar esse nome

A Fundação Verde Herbert Daniel não escolheu esse nome por acidente. Carregar o nome de alguém é uma declaração de intenção — e uma responsabilidade que se renova a cada projeto, a cada publicação, a cada posição pública.

O legado de Herbert Daniel impõe uma pergunta permanente: estamos sendo coerentes? Não no sentido de repetir seus escritos ou reproduzir o contexto dos anos 1980. Mas no sentido de manter a mesma recusa à fragmentação que marcou sua trajetória.

Desenvolvimento sustentável sem inclusão social não é desenvolvimento. Política ambiental que ignora os territórios vulneráveis não é política ambiental — é paisagismo institucional. Defesa da democracia que não passa pela diversidade e pela redução das desigualdades é defesa de uma democracia incompleta.

A Fundação existe para fortalecer uma visão integrada: sustentabilidade, governança, justiça climática e direitos humanos como dimensões de um mesmo compromisso. Não como pautas que se somam em uma lista. Como partes de uma mesma estrutura de pensamento e de ação.

Uma lição que o Brasil ainda está aprendendo

Herbert Daniel entendeu algo que parte do debate público brasileiro ainda processa com dificuldade: as desigualdades não competem entre si. Meio ambiente, raça, gênero, classe, diversidade e democracia não disputam espaço em uma fila de prioridades. Fazem parte do mesmo problema histórico — e qualquer solução que isole uma dessas dimensões tende a reproduzir, de formas diferentes, as mesmas estruturas que pretende superar.

Resgatar seu pensamento em 2026 não é nostalgia. É método. É a recusa de tratar como novidade aquilo que já havia sido diagnosticado com precisão — e a disposição de cobrar das instituições, inclusive das nossas, a coerência que ele praticou.

O futuro sustentável que queremos construir — mais justo, mais inclusivo, ecologicamente viável — passa pelas perguntas que ele teve coragem de fazer muito antes de seu tempo. A questão que fica não é se essas perguntas ainda são válidas. É se temos a honestidade de respondê-las.

Referências

DANIEL, Herbert. Vida antes da morte. Rio de Janeiro: Jaboti, 1984.

DANIEL, Herbert. Passagem para o próximo sonho. Rio de Janeiro: Codecri, 1982.

ACSELRAD, Henri. Justiça ambiental e construção social do risco. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

Organização das Nações Unidas (ONU). Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Disponível em: brasil.un.org/pt-br/sdgs

Fundação Verde Herbert Daniel. Disponível em: www.fvhd.org.br Sobre o autor

Allan Magri é Gestor Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos com atuação em ESG, sustentabilidade, governança e impacto social. Membro de Comitês Executivos da ABNT/ISO 2030-1 nas áreas de gestão ambiental, GEE, recursos hídricos, resíduos, governança e ESG.Coordenador do Departamento de Meio Ambiente do Instituto de Políticas Internacionais (IPI). Autor de publicações técnicas sobre ESG, bioeconomia, taxonomia sustentável e COP30.

LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/allanmagri-esg

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