Segurança hídrica no Brasil: entre o paradoxo da abundância e a crise real

Allan Moreno Magri
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos – Fundação Verde Herbert Daniel
Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança
Membro de Comitês Executivos ABNT/ISO (Ambiental, Auditoria e ESG)
🔗 www.linkedin.com/in/allanmagri-esg

Tem uma frase que a gente escuta desde a escola: o Brasil é o país da água. E, de fato,olhando os números friamente, isso é verdade. Temos cerca de 12% da água doce superficial do planeta. É um volume que coloca o país em posição privilegiada no cenário global.

Mas basta sair do discurso e olhar a realidade para perceber que essa “abundância” não se traduz em segurança hídrica.

Na prática, o que vemos é um país que convive, ao mesmo tempo, com enchentes e secas, com desperdício e escassez, com regiões que têm água demais e outras onde falta o básico. E isso não é uma contradição natural. É resultado direto de como escolhemos — ou deixamos de escolher — gerir esse recurso.

A verdade, dita de forma simples, é a seguinte: o Brasil não tem problema de falta de água. Tem problema de gestão, de prioridade e de visão de longo prazo.

Quando a abundância vira ilusão

Uma das primeiras coisas que precisamos entender é que a água no Brasil não está distribuída de forma equilibrada. A maior parte está concentrada na região Norte, especialmente na Amazônia, enquanto regiões como o Sudeste e o Nordeste, onde vive grande parte da população e da atividade econômica, enfrentam pressão constante.

Mas isso, por si só, não explica a crise.

O que pesa mesmo é a forma como o sistema é estruturado. Hoje, o país perde mais de um terço da água tratada antes mesmo de ela chegar às pessoas. É água que se perde em vazamentos, redes antigas, falta de manutenção e, muitas vezes, descaso.

Se a gente parar para pensar, é como se estivéssemos enchendo um balde furado — e, em vez de consertar o balde, continuamos buscando mais água.

Esse tipo de lógica não se sustenta no longo prazo.

A conexão que ainda ignoramos: floresta e água

Tem um ponto que, na minha visão, ainda é pouco compreendido fora dos círculos técnicos: não existe segurança hídrica sem conservação ambiental.

A floresta não é só paisagem. Ela é infraestrutura.

A Amazônia, por exemplo, funciona como uma grande bomba de umidade, gerando os chamados “rios voadores”, que levam chuva para outras regiões do país. Quando essa dinâmica é alterada pelo desmatamento, o impacto não fica restrito à região Norte — ele se espalha.

O mesmo acontece no Cerrado, que muita gente ainda subestima.

Ali estão algumas das principais nascentes do Brasil. Quando o Cerrado é degradado, não é só a vegetação que se perde. São sistemas inteiros de abastecimento que começam a colapsar aos poucos.

E esse “aos poucos” é perigoso, porque não faz barulho. É uma crise silenciosa.

Quando percebemos, já virou problema econômico, energético e social.

Mudanças climáticas: o fator que acelera tudo

Se antes já havia fragilidade, agora temos um agravante claro: as mudanças climáticas.

Os eventos extremos estão mais frequentes. As secas são mais longas, as chuvas mais intensas e desorganizadas. O que antes seguia um padrão relativamente previsível, hoje é cada vez mais incerto.

E isso impacta diretamente o Brasil.

Nosso sistema energético, por exemplo, ainda depende fortemente da água. Quando os reservatórios baixam, acionamos termelétricas, que são mais caras e mais poluentes. Ou seja, um problema ambiental vira também um problema econômico.

No campo, o impacto é imediato. A agricultura familiar, que já opera com margens apertadas, sofre com a irregularidade das chuvas. E isso chega, inevitavelmente, à mesa de todo mundo.

A água, nesse cenário, deixa de ser só um recurso e passa a ser um fator estratégico.

Quem sente primeiro são sempre os mesmos

Uma coisa que não dá para ignorar: a crise hídrica tem endereço.

Ela afeta mais quem já está em situação de vulnerabilidade.

São comunidades que enfrentam falta de abastecimento, bairros que lidam com racionamento, famílias que precisam adaptar toda a rotina por conta da falta de água. No campo, são pequenos produtores que perdem produção, renda e estabilidade.

E isso revela algo importante: segurança hídrica não é só um tema ambiental. É um tema social.

Quando falta água, falta dignidade.

O Brasil já sabe o que fazer — mas ainda faz pouc

Aqui entra um ponto que eu sempre gosto de reforçar: o Brasil não parte do zero.

Já temos boas experiências.

Programas como o “Produtor de Água”, da Agência Nacional de Águas, mostram que é possível alinhar conservação ambiental com incentivo econômico. Iniciativas de recuperação de bacias hidrográficas também já provaram que funcionam.

Fora isso, temos exemplos internacionais consistentes. Países que enfrentam escassez severa conseguiram avançar com tecnologia, reuso e gestão eficiente.

Então o problema não é falta de solução.

É falta de escala, de coordenação e, principalmente, de prioridade política.

O que precisa mudar de verdade

Se a gente quiser sair desse ciclo de crise recorrente, algumas decisões precisam deixar de ser adiadas.

A primeira delas é tratar a água como um ativo estratégico do país — e não como um recurso secundário.

Isso exige integração. Não dá mais para tratar meio ambiente, agricultura, energia e desenvolvimento urbano como agendas separadas. Tudo isso está conectado pela água.

Também passa por enfrentar o desmatamento de forma séria. Não é discurso, é lógica. Sem floresta, o ciclo da água se quebra.

Outro ponto crítico é investimento. Infraestrutura hídrica não aparece tanto quanto outras obras, mas faz diferença direta na vida das pessoas. Reduzir perdas, ampliar acesso, melhorar a qualidade — tudo isso exige planejamento e execução.

E tem um elemento que muitas vezes fica de lado: governança.

Os comitês de bacia, os instrumentos de gestão, os planos já existem. Mas precisam funcionar de verdade, com autonomia e capacidade de decisão.

No fim das contas, é sobre fazer o básico bem feito — com consistência e visão de longo prazo.

Água não é detalhe. É decisão de país

Se tem uma coisa que esse debate deixa clara é que água não pode ser tratada como um tema secundário.

Ela sustenta tudo.

Energia, produção de alimentos, indústria, saúde pública, qualidade de vida. Está tudo conectado.

E, ainda assim, seguimos tratando o tema de forma reativa, sempre correndo atrás do problema quando ele já virou crise.

Talvez esteja na hora de mudar essa lógica.

O Brasil tem todas as condições de ser referência global em segurança hídrica. Tem recurso natural, conhecimento técnico e capacidade institucional.

O que falta é alinhar isso com decisão política e prioridade real.

Porque, no fim do dia, a discussão não é sobre quantidade de água.

É sobre o tipo de país que queremos construir.

Referências (formato ABNT

BRASIL. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Conjuntura dos recursos hídricos no Brasil. Brasília: ANA, 2023.

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente (MMA). Plano Nacional de Recursos Hídricos. Brasília: MMA, 2022.

INSTITUTO TRATA BRASIL. Perdas de água na distribuição. São Paulo, 2023.

IPCC. Climate Change 2023: Synthesis Report. Geneva: Intergovernmental Panel on Climate Change, 2023.

EMBRAPA. Impactos das mudanças climáticas nos recursos hídricos. Brasília: Embrapa, 2022.

IPEA. Governança e gestão dos recursos hídricos no Brasil. Brasília: IPEA, 2021.

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