Distribuir renda sem regular o sistema financeiro:O limite que o Brasil precisa enfrentar

Allan Magri

Gestor Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos em ESG e Sustentabilidade | Fundação Verde Herbert Daniel | Coordenador do Depto. de Meio Ambiente – IPI | Membro de Comitês ABNT/ISO Nacional e Internacional | Analista de Processos – BRASFI

O Brasil avançou de forma significativa nas políticas de transferência de renda e proteção social. No entanto, persiste uma contradição estrutural: enquanto o Estado distribui renda, mecanismos financeiros desregulados — juros abusivos, crédito predatório, apostas online e financeirização da sobrevivência — drenam essa renda de volta. Este artigo analisa essa dinâmica a partir de dados recentes do Banco Central, CNC, IBGE e IPEA, e propõe uma agenda regulatória mínima para que os avanços sociais se traduzam em estabilidade real para as famílias brasileiras.

1. O paradoxo que precisa ser nomeado

O Brasil voltou ao mapa do crescimento social. A recuperação do Bolsa Família, a valorização real do salário mínimo e a recomposição gradual do mercado formal de trabalho produziram resultados concretos. Segundo o IBGE, a taxa de desocupação caiu para os menores níveis da série histórica recente — um avanço que nenhuma análise honesta pode ignorar.

Mas há uma pergunta que os dados macroeconômicos não respondem: por que tantas famílias, mesmo com mais renda formal, continuam se sentindo financeiramente sufocadas?

A resposta está em um mecanismo que opera silenciosamente: a renda entra pela porta da política social e sai pela janela do sistema financeiro. Juros estratosféricos, apostas online, crédito predatório e a financeirização da vida cotidiana transformaram o orçamento popular em território permanente de extração econômica.

Distribuir renda sem regular o sistema financeiro é tratar sintoma sem tocar na causa.

Esta é a contradição estrutural que o Brasil precisa enfrentar com honestidade intelectual e coragem política — e que este artigo se propõe a analisar.

2. Os números do endividamento: um novo patamar estrutural

Os dados não deixam margem para relativização. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC):

  • Em dezembro de 2025, 78,9% das famílias brasileiras relataram ter algum tipo de dívida — o maior patamar para o mês em toda a série histórica da pesquisa [1].
  • A inadimplência chegou a 29,4% no mesmo período — quase 1 em cada 3 famílias com contas em atraso [1].
  • O endividamento das famílias no Sistema Financeiro Nacional atingiu 49,7% da renda disponível bruta em novembro de 2025, próximo ao recorde histórico de 2022 [2].
  • Entre 2017 e 2025, o índice saltou de 60,8% para quase 79% — uma transformação estrutural, não uma flutuação conjuntural [3].

O que esses números revelam não é um problema pontual de gestão financeira pessoal. É uma nova condição estrutural das finanças domésticas brasileiras, moldada por choques sucessivos — recessão, pandemia, inflação — e sustentada por um sistema financeiro que lucra sobre a vulnerabilidade.

“Redução do desemprego, elevação recente da renda e Programa Desenrola não foram suficientes para reverter o problema.” — Blog do IBRE/FGV, 2025 [3]

Famílias de baixa renda concentram desproporcionalmente o crédito mais caro: operações sem garantia, emergenciais, com juros mais altos e prazos mais curtos. A pobreza, no Brasil, paga mais caro para existir.

3. Juros como política de punição à pobreza

O Brasil tem uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Isso já seria suficiente para preocupar qualquer gestor público. Mas o impacto menos debatido está no crédito do dia a dia das famílias.

Segundo o Banco Central do Brasil:

  • Os juros médios para famílias atingiram 60,1% ao ano em dezembro de 2025 — alta de 7 pontos percentuais no ano [4].
  • O cartão de crédito rotativo operou na faixa de 428% a 451% ao ano em 2025, ainda a modalidade mais cara do sistema financeiro [5].
  • O crédito pessoal não consignado chegou a 116,8% ao ano em dezembro de 2025 [4].

O rotativo é a armadilha mais perigosa: o consumidor paga o mínimo da fatura, a dívida se transforma em empréstimo, e os juros passam a correr. Em pouco tempo, uma conta de supermercado vira uma dívida impagável.

Não é exagero afirmar que o sistema de crédito brasileiro foi estruturado para perpetuar o endividamento — especialmente das famílias que mais precisam de liquidez e que menos têm acesso a alternativas mais baratas.

4. A epidemia das bets: quando a esperança vira extração

Se os juros são o mecanismo histórico de captura da renda popular, as apostas online são sua versão digitalizada e acelerada.

Os dados de 2024 e 2025 são alarmantes:

  • Os brasileiros apostaram aproximadamente R$ 240 bilhões em plataformas online em 2024 — valor equivalente a mais de três orçamentos anuais do Bolsa Família [6].
  • O varejo deixou de faturar R$ 103 bilhões em 2024 por conta do redirecionamento de renda para as bets (CNC) [7].
  • Entre janeiro de 2023 e março de 2026, estima-se que R$ 143 bilhões migraram do comércio varejista para plataformas de apostas [8].
  • Mais de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em apostas via Pix em apenas um mês de 2024 [6].
  • Cerca de 1,8 milhão de brasileiros entraram em inadimplência diretamente associada ao comprometimento de renda com bets [7].
  • A CNC estima que as apostas podem ter levado 270 mil famílias à inadimplência severa — atrasos superiores a 90 dias [9].

A lógica é perversa e precisa ser nomeada: quanto maior a insegurança econômica, maior o apelo da promessa de ganho rápido. As plataformas de apostas vendem esperança para quem está desesperado — usando publicidade massiva, gamificação, influenciadores e acesso irrestrito pelo celular.

Não é entretenimento inócuo. É um mecanismo de extração financeira que atinge prioritariamente a população de menor renda, mais jovem e mais vulnerável a transtornos relacionados ao jogo.

5. Desigualdade de gênero, raça e território: o recorte que não pode ser ignorado

Uma análise ESG rigorosa não pode tratar o endividamento como fenômeno neutro. Ele tem gênero, raça e endereço.

Gênero:

Mulheres administram a maior parte do orçamento doméstico brasileiro. São elas que negociam dívidas, atrasam contas e sacrificam alimentação própria para garantir o básico para os filhos. Mães solo vivem isso na forma mais brutal. E quando o orçamento colapsa, são elas que absorvem emocionalmente — e fisicamente — as consequências: estresse crônico, insônia, hipertensão, depressão. A insegurança financeira permanente é, também, um problema de saúde pública feminina.

Raça:

Populações negras concentram-se nas menores rendas, na informalidade e nos territórios com menor acesso a crédito justo. Pagam juros mais altos, acumulam menos patrimônio e dependem proporcionalmente mais de crédito emergencial. O racismo estrutural opera também pelo sistema financeiro — e qualquer agenda séria de equidade racial no Brasil precisa incluir regulação financeira.

Território:

As regiões Norte e Nordeste apresentam padrões de inadimplência estruturalmente mais elevados, como demonstram estudos do IBRE/FGV [3]. A desigualdade financeira é também regional — e exige políticas diferenciadas por território.

6. Cinco frentes de ação: o que precisa mudar

A crítica sem proposta é apenas denúncia. Como gestor de políticas públicas e ESG, identifico cinco frentes prioritárias que precisam avançar de forma articulada:

6.1 Regulação das apostas online

A regulamentação de 2023 foi um passo necessário, mas insuficiente. É preciso avançar em: limites de gasto por CPF; restrições efetivas de publicidade para públicos vulneráveis; financiamento público de programas de prevenção e tratamento do transtorno do jogo; e monitoramento contínuo do impacto socioeconômico das bets — com métricas integradas ao sistema de proteção social.

6.2 Redução estrutural do custo do crédito

Transparência contratual obrigatória, ampliação da concorrência bancária, fortalecimento do crédito cooperativo e popular, e revisão das condições que mantêm o Brasil entre os países com juro real mais alto do mundo. O crédito não pode funcionar como mecanismo permanente de punição da pobreza.

6.3 Proteção digital do consumidor financeiro

Aplicativos financeiros utilizam estratégias psicológicas sofisticadas para estimular consumo e endividamento. O Brasil precisará regular: design viciante, gamificação financeira, publicidade algorítmica segmentada por vulnerabilidade e transparência em ofertas digitais. A proteção de dados econômicos precisa entrar na pauta do Marco Civil e da LGPD.

6.4 Tributação progressiva e justiça fiscal

Sem reforma tributária que reduza o peso dos tributos indiretos sobre o consumo popular e amplie a tributação sobre patrimônio e renda financeira, a desigualdade continuará sendo reproduzida estruturalmente. Isso não é pauta ideológica — é pré-condição para eficiência alocativa.

6.5 Saúde mental como componente da política financeira

O endividamento crônico produz adoecimento coletivo mensurável. Ansiedade, depressão, insônia e hipertensão associadas à insegurança financeira geram custos reais para o SUS e para a produtividade do trabalho. Integrar saúde financeira à política de saúde mental é eficiência, não paternalismo.

7. O próximo ciclo do desenvolvimento brasileiro

O Brasil demonstrou que consegue distribuir renda. Programas sociais funcionam — os dados de redução da pobreza extrema e melhora nos indicadores de saúde confirmam isso.

Mas há uma verdade estrutural que precisa ser enfrentada: não haverá desenvolvimento sustentável enquanto a renda distribuída às famílias continuar sendo silenciosamente drenada por mecanismos financeiros desregulados.

Melhorar indicadores de renda sem alterar a lógica de captura financeira é como tentar encher um balde com um furo no fundo. A água entra — mas não fica.

A agenda regulatória não é opcional. Ela é a condição para que os avanços sociais dos últimos anos se traduzam em estabilidade real, acúmulo patrimonial e autonomia financeira para as famílias brasileiras.

Este é o debate que o Brasil precisa ter — com dados, com coragem e com clareza sobre quem ganha e quem perde quando o sistema financeiro permanece desregulado.

Referências

[1] Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) – dezembro de 2025. Disponível em: portaldocomercio.org.br.

[2] Blog do IBRE/FGV. Precisamos falar sobre o endividamento e a inadimplência das famílias. Publicado em abril de 2026. Disponível em: blogdoibre.fgv.br.

[3] Blog do IBRE/FGV. O endividamento e a inadimplência das famílias entraram num novo patamar? Publicado em outubro de 2025. Disponível em: blogdoibre.fgv.br.

[4] Banco Central do Brasil. Estatísticas Monetárias e de Crédito – dezembro de 2025. Disponível em: bcb.gov.br.

[5] Agência Brasil. Juros do cartão de crédito rotativo avançam e chegam a 451,5% ao ano. Setembro de 2025. Disponível em: agenciabrasil.ebc.com.br.

[6] Agência Brasil / IEPS / Umane. Aposta online e jogo de azar custam R$ 38,8 bilhões ao país. Dezembro de 2025. Disponível em: agenciabrasil.ebc.com.br.

[7] Agência Brasil. CNC diz que bets causaram perdas de R$ 103 bilhões ao varejo em 2024. Janeiro de 2025. Disponível em: agenciabrasil.ebc.com.br.

[8] StartSe. Estudo: R$ 143 bilhões migraram do varejo para as bets. Abril de 2026. Disponível em: startse.com.

[9] Agência Brasil. Para CNC, bets agravam endividamento das famílias brasileiras. Abril de 2026. Disponível em: agenciabrasil.ebc.com.br.

Sobre o autor

Allan Magri é Gestor Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos com atuação em ESG, sustentabilidade, governança e impacto social. Membro de Comitês Executivos da ABNT/ISO 2030-1 nas áreas de gestão ambiental, GEE, recursos hídricos, resíduos, governança e ESG.Coordenador do Departamento de Meio Ambiente do Instituto de Políticas Internacionais (IPI). Autor de publicações técnicas sobre ESG, bioeconomia, taxonomia sustentável e COP30.

LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/allanmagri-esg

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