O SUS que temos e o SUS que o Brasil merece 

Allan Magri

Gestor Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos em ESG e Sustentabilidade | Fundação Verde Herbert Daniel | Coordenador do Depto. de Meio Ambiente – IPI | Membro de Comitês ABNT/ISO Nacional e Internacional | Analista de Processos – BRASFI

Tem uma coisa que aprendi trabalhando com gestão pública e ESG: as pessoas só percebem o valor de uma política pública quando ela deixa de funcionar. E isso é particularmente verdadeiro quando o assunto é o SUS. 

Pense bem. A vacina que seu filho tomou no posto de saúde, o transplante de rim que salvou a vida do vizinho, o medicamento antirretroviral que permite que milhões de brasileiros com HIV vivam com qualidade de vida — tudo isso é SUS. É gratuito. É universal. E existe porque há 36 anos a sociedade brasileira decidiu escrever na Constituição que saúde é direito de todos, não privilégio de quem pode pagar. 

Com as eleições de 2026 colocando a saúde pública de volta no centro do debate nacional, vale a pena parar e entender melhor o que está em jogo — sem exageros de nenhum lado. 

Uma conquista que não pode ser tratada como óbvia 

O SUS foi criado pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado pela Lei nº 8.080/1990. Três princípios sustentam toda sua arquitetura: universalidade (qualquer brasileiro tem direito ao atendimento), integralidade (o cuidado vai da prevenção à reabilitação) e equidade (quem mais precisa, recebe mais atenção). 

Números ajudam a dimensionar o que isso representa. Hoje, entre 75% e 76% da população brasileira depende exclusivamente do SUS para acessar serviços de saúde — mais de 160 milhões de pessoas. O sistema está presente nos 5.570 municípios do país e realiza bilhões de procedimentos por ano, desde uma consulta básica até cirurgias de alta complexidade. (Ministério da Saúde, 2025) 

Isso não é pouco. É, na verdade, um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo em funcionamento. E a maioria das pessoas nem sabe disso. 

O que o SUS já entregou — e que o mercado não entregaria 

Quando a gente olha os resultados concretos, fica difícil negar o impacto do sistema. O Programa Nacional de Imunizações é um dos mais robustos do planeta. Graças às campanhas públicas de vacinação, o Brasil conseguiu eliminar ou controlar doenças que durante décadas causavam mortes em massa — poliomielite, sarampo, rubéola. (Ministério da Saúde – Vacinação) 

Na área de HIV/Aids, o Brasil se tornou referência mundial ao garantir gratuitamente diagnóstico, prevenção e tratamento — incluindo medicamentos antirretrovirais que transformaram uma sentença de morte em uma condição crônica controlável. Hoje o sistema avança ainda mais, com estratégias como a PrEP e novas incorporações terapêuticas. (Ministério da Saúde – HIV/Aids) 

E tem um dado que surpreende muita gente: o Brasil possui uma das maiores redes públicas de transplantes do mundo. Em 2024, o SUS realizou aproximadamente 30 mil transplantes e fornece gratuitamente os medicamentos para manutenção dos pacientes transplantados. (Ministério da Saúde – Sistema Nacional de Transplantes, 2024) 

Além disso, a Estratégia Saúde da Família — responsável por atendimentos de pré-natal, parto, prevenção de câncer, acompanhamento infantil e planejamento familiar — é considerada uma das políticas de atenção básica mais bem-sucedidas do mundo. É o sistema chegando onde o mercado nunca chegaria: no interior do Maranhão, nas periferias do Rio, nas comunidades ribeirinhas do Amazonas. 

Tudo isso com acesso gratuito, universal e descentralizado. 

Reconhecer os problemas sem usar isso como argumento para desmontar o sistema 

Seria desonesto ignorar as dificuldades. Filas para consultas especializadas são reais. A demora em exames de alta complexidade frustra quem depende do sistema. As desigualdades regionais são gritantes — um hospital bem equipado em São Paulo e a ausência quase total de especialistas em municípios do Norte são parte do mesmo sistema. O subfinanciamento histórico é um problema estrutural que nenhum gestor consegue resolver só com criatividade. E a integração tecnológica entre sistemas ainda é precária. 

Mas aqui preciso ser direto: reconhecer os problemas do SUS não pode virar argumento para desmontá-lo. A lógica de “o sistema tem falhas, então vamos reduzi-lo” é tão equivocada quanto ignorar as falhas. Nenhum sistema de saúde pública do mundo funciona sem problemas — e os países que decidiram privatizar ou fragmentar seus sistemas descobriram isso da pior forma. 

O debate legítimo é outro: como melhoramos o que temos? 

Os caminhos em disputa — e o que cada um representa 

Há pelo menos três visões em jogo sobre o futuro do SUS, e é importante entendê-las sem caricatura. 

Uma corrente defende que o principal gargalo não é dinheiro, mas gestão. O argumento tem peso: digitalização de prontuários, integração nacional de dados, ampliação da telemedicina, uso de indicadores de desempenho e redução da burocracia podem gerar ganhos reais de eficiência sem necessariamente expandir o orçamento. A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) é um passo concreto nessa direção. (DATASUS) 

Outra corrente parte de uma premissa diferente: um sistema que atende 160 milhões de pessoas com subfinanciamento crônico não vai se resolver só com melhor gestão. O argumento aqui é estrutural — sistemas universais de saúde em países como Alemanha, Canadá e Reino Unido investem proporcionalmente muito mais do que o Brasil. Sem financiamento compatível com a demanda, a eficiência tem um teto baixo. 

Há ainda uma terceira visão, mais voltada à eficiência dentro dos recursos disponíveis: aprimorar mecanismos de gestão, ampliar parcerias reguladas com o setor privado e fortalecer a governança para fazer mais com o que existe. 

Nenhuma dessas visões é absurda em si. O problema é quando alguma delas se torna dogma — quando a gestão vira pretexto para corte, ou quando o debate de financiamento ignora completamente a qualidade do gasto. 

O que o Brasil precisa é de uma conversa honesta que some as três abordagens, não que as coloque em guerra. 

Por que isso importa além da saúde 

Trabalho com ESG há anos. E uma das coisas que mais me incomoda no debate público brasileiro é a desconexão entre saúde e desenvolvimento. 

Saúde não é gasto. É investimento. Uma população saudável é mais produtiva, mais educada, mais capaz de contribuir economicamente e socialmente. Quando uma criança perde dias de escola por falta de acesso a cuidados básicos, ou quando um trabalhador fica fora do mercado por uma condição que poderia ter sido tratada cedo, o custo não é só humano — é econômico. É social. É uma perda de capital humano que o país não pode se dar ao luxo. 

Do ponto de vista da governança e do desenvolvimento sustentável, o SUS é uma das políticas públicas com maior impacto nos ODS — especialmente no ODS 3 (Saúde e Bem-Estar) e no ODS 10 (Redução das Desigualdades). E é também uma política de equidade: ela chega onde o mercado não vai, reduz disparidades que o setor privado não tem incentivo para corrigir. 

Isso não é argumento ideológico. É análise de impacto. 

O que a Fundação Verde Herbert Daniel entende sobre isso 

A FVHD foi construída sobre o legado de Herbert Daniel — um homem que viveu na própria pele o que significa depender de um sistema de saúde público, e que mesmo assim lutou pela universalidade, pela dignidade e pela inclusão. 

Para nós, o SUS não é uma abstração política. É uma política de proteção à vida humana e à dignidade social. Fortalecer o SUS significa fortalecer o Brasil — não o Brasil de um espectro ideológico, mas o Brasil de todas as pessoas que nascem, adoecem, envelhecem e precisam de cuidado. 

O envelhecimento da população, as mudanças climáticas — que já estão impactando a saúde pública com ondas de calor, proliferação de vetores de doenças e eventos extremos —, as novas ameaças pandêmicas e a transformação digital vão exigir um sistema cada vez mais preparado. 

Investir no SUS hoje é escolher que tipo de país o Brasil quer ser nas próximas décadas. E essa é uma escolha que precisa ser feita com consciência, não com polarização. 

Referências 

  • Constituição Federal de 1988 
  • Lei nº 8.080/1990 – Lei Orgânica da Saúde 
  • Ministério da Saúde – Sistema Único de Saúde (SUS). Disponível em: gov.br/saude 
  • Ministério da Saúde – Vacinação. Disponível em: gov.br/saude/vacinacao 
  • Ministério da Saúde – HIV/Aids. Disponível em: gov.br/saude/aids-hiv 
  • Ministério da Saúde – Sistema Nacional de Transplantes. Disponível em: gov.br/saude/snt 
  • DATASUS e Rede Nacional de Dados em Saúde. Disponível em: datasus.saude.gov.br 
  • Governo Federal – 35 anos do SUS. Disponível em: gov.br/saude 

Allan Moreno Magri é Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos da Fundação Verde Herbert Daniel (FVHD), especialista em ESG, sustentabilidade e governança, áreas de gestão ambiental, GHG e ESG. 

LinkedIn: linkedin.com/in/allanmagri-esg 

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