Por Allan Moreno Magri – Gestor Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos em ESG e Sustentabilidade | Fundação Verde Herbert Daniel | Coordenador do Depto. de Meio Ambiente – IPI | Membro de Comitês ABNT/ISO Nacional e Internacional | Analista de Processos – BRASFI
O que está em jogo e o que as evidências dizem
Poucos temas mexem tanto com o futuro de um país quanto a educação. E olha, não estou falando só de escola — estou falando de renda, de oportunidade, de democracia, de geração que vai liderar o Brasil daqui a vinte anos.
O debate voltou com força ao centro da conversa pública, e isso é bom. Mas tem ficado preso demais em trincheiras ideológicas. De um lado, quem defende investimento público como único caminho. Do outro, quem empunha gestão e meritocracia como salvação. E no meio desse cabo de guerra, a pergunta que realmente importa some: o que funciona, de fato?
Este artigo é uma tentativa de responder isso com base em evidências — não em slogans.
Onde estamos: acesso sim, aprendizagem ainda não
O Brasil avançou muito em acesso à escola. A maior parte das crianças e adolescentes está matriculada na educação básica. Essa é uma conquista real, que precisamos reconhecer.
Mas acesso não é sinônimo de aprendizagem. Longe disso.
Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2025 mostram que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos ainda são analfabetos funcionais. Três em cada dez pessoas. Isso significa que elas conseguem ler frases simples, mas têm dificuldade para interpretar um texto, resolver uma conta básica ou entender uma bula de remédio.
Esse número não é abstrato. Ele representa gente que vai ao mercado de trabalho sem ferramentas mínimas, que toma decisões sem informação suficiente, que fica à margem da cidadania plena.
E a desigualdade continua gritante. A qualidade da educação varia brutalmente entre regiões, estados e municípios — às vezes entre escolas a poucos quilômetros de distância. Quem tem mais, aprende mais. Quem nasce na periferia ainda enfrenta uma corrida com pesos diferentes.
O ensino médio, então, é um capítulo à parte: evasão alta, currículo desconectado da realidade dos jovens e uma geração que não vê sentido naquilo que estuda. Esse não é um problema novo, mas continua sem solução clara.
Os modelos em disputa
No debate atual, é possível identificar pelo menos três grandes linhas de pensamento — e cada uma delas carrega verdades e limitações.
A primeira aposta na gestão como alavanca central. A lógica é simples: não basta gastar mais, é preciso gastar bem. Metas claras, avaliações periódicas, indicadores de desempenho, fortalecimento do ensino técnico e profissional. Quem defende esse caminho argumenta que recursos sem responsabilização viram desperdício.
A segunda linha prioriza o investimento público. O argumento aqui é que escolas mal estruturadas, professores desvalorizados e políticas de inclusão insuficientes criam um teto baixo que nenhuma boa gestão consegue romper sozinha. Sem investimento consistente, o sistema não decola.
A terceira corrente coloca ênfase em meritocracia, resultados acadêmicos e uma base curricular sólida. O foco está na aprendizagem concreta, na responsabilização dos sistemas educacionais e na exigência de que cada etapa escolar entregue o que promete.
Cada uma dessas perspectivas faz sentido dentro do seu próprio referencial. O problema é quando qualquer uma delas vira dogma — e aí a discussão deixa de ser sobre educação e vira disputa de narrativa.
O que os países que avançaram têm em comum
Quando olhamos para os sistemas educacionais que conseguiram evoluir de forma consistente — Finlândia, Coreia do Sul, Cingapura, Estônia, entre outros — alguns padrões aparecem independente de ideologia.
O primeiro é a valorização real dos professores. Não no discurso — na prática. Formação inicial séria, capacitação continuada, salário digno e carreira atraente. A OCDE é enfática nisso: a qualidade do professor é um dos fatores mais determinantes para o aprendizado dos alunos. Você pode ter a melhor infraestrutura do mundo, mas se o profissional em sala de aula não estiver bem preparado e motivado, o sistema não funciona.
O segundo padrão é gestão eficiente. Os melhores sistemas não são necessariamente os que mais gastam — são os que melhor convertem recursos em aprendizagem. Planejamento, monitoramento, avaliação e correção de rota fazem parte da rotina, não são exceção.
O terceiro fator é continuidade. Educação não se resolve em um mandato. Os países que mais avançaram construíram políticas de longo prazo, com consensos que sobrevivem a mudanças de governo. No Brasil, esse é um dos pontos mais frágeis: cada gestão tende a começar do zero, desfazer o que estava funcionando e reimplantar o que já foi tentado antes.
E o quarto elemento — talvez o mais difícil de replicar — é o equilíbrio entre excelência e inclusão. Os melhores sistemas não escolhem entre formar os melhores alunos ou garantir que todos aprendam. Eles buscam os dois ao mesmo tempo, porque entendem que equidade não é inimiga da qualidade.
Educação não é gasto. É investimento.
O debate político insiste em enquadrar educação como linha de despesa pública. Isso é um equívoco estratégico.
Cada ano adicional de escolaridade aumenta renda, produtividade e perspectivas de vida. Sociedades mais educadas inovam mais, crescem mais e participam mais da democracia. Não é teoria — é o que os dados de décadas de pesquisa econômica mostram de forma consistente.
Investir em educação é investir na capacidade do país de gerar riqueza, reduzir desigualdade e criar oportunidade. Cortar esse investimento por razões fiscais de curto prazo é uma escolha que se paga muito caro nas décadas seguintes.
Mas atenção: investimento sem gestão é desperdício. E gestão sem investimento é ilusão. Os dois precisam andar juntos — e os países que entenderam isso saíram na frente.
O que a Fundação Verde Herbert Daniel defende
Na FVHD, entendemos que educação pública de qualidade é pilar da democracia e do desenvolvimento sustentável. Não são conceitos separados — se a educação falha, a capacidade de uma sociedade de tomar boas decisões coletivas também falha.
Fortalecer a educação exige valorização dos profissionais, gestão responsável dos recursos públicos, políticas de inclusão que cheguem onde precisam chegar, e foco permanente no que realmente importa: o aprendizado.
Os países que mais avançaram não escolheram entre investimento ou gestão. Escolheram os dois — e construíram consensos para sustentar essa escolha ao longo do tempo.
O Brasil pode fazer o mesmo. Mas para isso, o debate precisa sair das trincheiras e ir para onde as evidências estão.
Referências
Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), 2025.
Disponível em: alfabetismofuncional.org.br
UNICEF Brasil.
Analfabetismo funcional não apresenta melhora e alcança 29% dos brasileiros. 2025.
Agência Brasil.
Três em cada dez brasileiros são analfabetos funcionais. 2025.
OCDE.
Teachers Matter – Attracting, Developing and Retaining Effective Teachers.
Jeduca.
Dados Educacionais e Indicadores da OCDE.
Allan Moreno Magri
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos
Fundação Verde Herbert Daniel (FVHD)
Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança
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