Endividamento popular no Brasil: por que é estrutura, não falha individual

Escrito por:
Allan Moreno Magri
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos | Fundação Verde Herbert Daniel
Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança
Membro de comitês executivos ABNT/ISO (ambiental, auditoria, governança, ESG)
🔗 www.linkedin.com/in/allanmagri-esg

Tem uma narrativa que se repete no Brasil como se fosse uma verdade absoluta: “o problema é falta de educação financeira”.

Você já ouviu isso. Eu também.

Mas vamos ser francos — isso explica uma parte pequena do problema. O grosso não está aí.

O que está acontecendo no Brasil hoje é outra coisa: um padrão coletivo de endividamento que não nasce de decisões isoladas, mas de uma engrenagem que empurra milhões de pessoas para a dívida.

Isso tem nome: endividamento estrutural.

E entender isso muda completamente o tipo de solução que precisamos discutir.

O que é, de fato, endividamento estrutural

Endividamento individual é simples: uma pessoa gasta mais do que pode e entra no vermelho.

Endividamento estrutural é outra história.

É quando uma parcela massiva da população passa a comprometer renda de forma contínua, não por erro isolado, mas porque o sistema econômico cria esse padrão como resultado previsível.

No Brasil, esse padrão já está consolidado.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, mais de 78% das famílias brasileiras estavam endividadas em 2025.
A inadimplência — ou seja, quem já não consegue pagar — gira em torno de 29% a 30%.

Já dados da Serasa Experian apontam que o Brasil ultrapassou a marca de 70 milhões de negativados.

Isso não é comportamento individual.
Isso é padrão sistêmico.

O peso da renda comprometida

Outro dado que pouca gente fala: não é só ter dívida — é o quanto da renda está sendo drenado.

Banco Central do Brasil mostra que o comprometimento médio da renda das famílias com dívidas gira em torno de 27% a 30%, podendo ultrapassar isso em faixas de menor renda.

Traduzindo isso para o dia a dia:

👉 A cada R$ 1.000 que entram, até R$ 300 já estão comprometidos antes mesmo da pessoa viver o mês.

Agora soma isso com:

  • aluguel ou prestação
  • alimentação
  • transporte
  • energia
  • saúde

Não fecha.

E quando não fecha, o crédito vira ponte.
E essa ponte, no Brasil, é cara — muito cara.

Motor 1: os juros mais altos do mundo

Aqui está o primeiro grande motor estrutural.

O Brasil convive há anos com uma das maiores taxas de juros reais do planeta.

Segundo o próprio Banco Central e comparativos internacionais do Fundo Monetário Internacional, o país frequentemente aparece entre os líderes globais em juros reais (juros descontada a inflação).

Mas o problema não está só na taxa básica (Selic).

Está no que chega na ponta:

  • Cartão de crédito rotativo: pode ultrapassar 400% ao ano
  • Cheque especial: acima de 130% ao ano
  • Crédito pessoal: frequentemente acima de 80% ao ano

Isso não é crédito — é mecanismo de drenagem de renda.

Porque uma dívida pequena vira grande muito rápido.

Exemplo simples:

  • Uma dívida de R$ 1.000 no rotativo pode dobrar em poucos meses
  • Sem aumento proporcional de renda

Resultado: bola de neve.

Motor 2: inflação onde mais dói

O segundo motor não aparece tanto nos debates técnicos, mas pesa direto no bolso.

A inflação no Brasil não afeta todo mundo igual.

Ela é concentrada em itens essenciais, especialmente para quem ganha menos:

  • alimentos
  • energia
  • gás
  • transporte

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que esses itens têm peso muito maior no orçamento das famílias de baixa renda.

Ou seja:

👉 Quem ganha menos sente mais inflação
👉 E precisa recorrer mais ao crédito para fechar o mês

É um ciclo.

E não adianta falar de planejamento financeiro quando a conta básica não fecha.

Motor 3: crédito fácil — e predatório

O terceiro motor fecha o ciclo: o tipo de crédito disponível.

No Brasil, o acesso ao crédito cresceu — o que, em tese, é positivo.

Mas cresceu com um problema sério: a qualidade desse crédito.

Grande parte das linhas disponíveis são:

  • de curto prazo
  • com juros altos
  • sem avaliação adequada de capacidade de pagamento

E muitas vezes direcionadas justamente para quem tem menor renda e maior vulnerabilidade.

Exemplos clássicos:

  • rotativo do cartão
  • cheque especial
  • consignado com margem estourada
  • fintechs com crédito instantâneo e taxas elevadas

Isso cria uma lógica perigosa:

👉 O crédito deixa de ser ferramenta de desenvolvimento
👉 E passa a ser ferramenta de sobrevivência

E sobrevivência financiada a juros altos vira armadilha.

Onde entra o Estado — e onde ele falha

Aqui está o ponto mais sensível — e mais importante.

Em qualquer economia organizada, o mercado financeiro não opera sozinho.

Ele é regulado.

E essa regulação tem um papel claro:
proteger o consumidor de assimetrias de informação e abuso de poder econômico.

No Brasil, essa proteção ainda é limitada.

Sim, houve avanços:

  • teto do cheque especial
  • maior transparência no crédito
  • iniciativas de renegociação

Mas ainda estamos longe de enfrentar o problema estrutural.

Faltam medidas como:

  • controle efetivo de juros abusivos na ponta
  • regras mais rígidas para oferta de crédito
  • limites reais de comprometimento de renda
  • educação financeira integrada à regulação — não isolada

Porque educação financeira sem regulação é como ensinar alguém a nadar em mar revolto sem colete.

E os avanços recentes? Funcionaram?

É importante reconhecer: houve avanços nos últimos anos.

Políticas como:

  • ampliação do Bolsa Família
  • valorização do salário mínimo
  • retomada do emprego formal

tiveram impacto real.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do IBGE mostram melhora:

  • aumento da renda média
  • redução da extrema pobreza
  • recuperação do mercado de trabalho

Isso ajuda — e muito.

Mas não resolve o problema estrutural.

Por quê?

Porque estamos falando de duas camadas diferentes:

👉 Política social melhora renda
👉 Estrutura financeira define quanto dessa renda fica com as famílias

Se a renda sobe, mas o custo do crédito continua alto, a drenagem continua.

O erro da narrativa dominante

Agora voltamos ao começo.

Quando o debate público insiste em dizer que o problema é “falta de educação financeira”, ele faz duas coisas perigosas:

  1. Individualiza um problema coletivo
  2. Desvia o foco das soluções estruturais

Claro que educação financeira é importante.

Mas ela não resolve:

  • juros abusivos
  • inflação concentrada
  • crédito predatório

É como culpar o motorista por dirigir mal numa estrada cheia de buracos.

Pode até existir erro individual — mas o problema principal está na estrada.

O que precisa entrar na agenda agora

Se a gente quiser tratar o problema de verdade, o próximo passo é claro:

enfrentar a estrutura que produz o endividamento.

Isso passa por uma agenda consistente de política pública:

1. Regulação do crédito na ponta

Limites reais para taxas abusivas e maior controle sobre modalidades de alto risco.

2. Proteção de renda

Mecanismos que evitem comprometimento excessivo da renda das famílias.

3. Redesign do sistema de crédito

Expandir linhas mais baratas e sustentáveis, especialmente para baixa renda.

4. Integração com política social

Crédito não pode substituir renda — ele deve complementar, não sustentar.

5. Educação financeira com contexto

Ensinar sim, mas sem ignorar o ambiente em que as pessoas estão inseridas.

O ponto central que não dá mais para ignorar

O Brasil não é um país de pessoas “financeiramente irresponsáveis”.

É um país onde o sistema financeiro, combinado com renda ainda desigual, produz endividamento como resultado esperado.

Enquanto tratarmos isso como falha individual, vamos continuar enxugando gelo.

E o sistema que drena renda segue intacto.

Fechando direto ao ponto

Se tem uma frase que resume tudo, é essa:

👉 Não basta aumentar a renda — é preciso parar a drenagem.

Sem enfrentar juros, estrutura de crédito e regulação, qualquer avanço social vira paliativo.

E aí o ciclo se repete.

A gente melhora… e volta para o mesmo lugar.

Referências (formato ABNT)

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Economia Bancária. Brasília: BCB, 2025.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO COMÉRCIO (CNC). Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC). 2025.
IBGE. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Rio de Janeiro: IBGE, 2025.
IPEA. Boletim de Políticas Sociais. Brasília: IPEA, 2025.
SERASA EXPERIAN. Mapa da Inadimplência no Brasil. 2025.
FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). World Economic Outlook. 2025.

Endividamento popular no Brasil: por que é estrutura, não falha individual

Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos | Fundação Verde Herbert Daniel
Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança
Membro de comitês executivos ABNT/ISO (ambiental, auditoria, governança, ESG)
🔗 www.linkedin.com/in/allanmagri-esg

Tem uma narrativa que se repete no Brasil como se fosse uma verdade absoluta: “o problema é falta de educação financeira”.

Você já ouviu isso. Eu também.

Mas vamos ser francos — isso explica uma parte pequena do problema. O grosso não está aí.

O que está acontecendo no Brasil hoje é outra coisa: um padrão coletivo de endividamento que não nasce de decisões isoladas, mas de uma engrenagem que empurra milhões de pessoas para a dívida.

Isso tem nome: endividamento estrutural.

E entender isso muda completamente o tipo de solução que precisamos discutir.

O que é, de fato, endividamento estrutural

Endividamento individual é simples: uma pessoa gasta mais do que pode e entra no vermelho.

Endividamento estrutural é outra história.

É quando uma parcela massiva da população passa a comprometer renda de forma contínua, não por erro isolado, mas porque o sistema econômico cria esse padrão como resultado previsível.

No Brasil, esse padrão já está consolidado.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, mais de 78% das famílias brasileiras estavam endividadas em 2025.
A inadimplência — ou seja, quem já não consegue pagar — gira em torno de 29% a 30%.

Já dados da Serasa Experian apontam que o Brasil ultrapassou a marca de 70 milhões de negativados.

Isso não é comportamento individual.
Isso é padrão sistêmico.

O peso da renda comprometida

Outro dado que pouca gente fala: não é só ter dívida — é o quanto da renda está sendo drenado.

Banco Central do Brasil mostra que o comprometimento médio da renda das famílias com dívidas gira em torno de 27% a 30%, podendo ultrapassar isso em faixas de menor renda.

Traduzindo isso para o dia a dia:

👉 A cada R$ 1.000 que entram, até R$ 300 já estão comprometidos antes mesmo da pessoa viver o mês.

Agora soma isso com:

  • aluguel ou prestação
  • alimentação
  • transporte
  • energia
  • saúde

Não fecha.

E quando não fecha, o crédito vira ponte.
E essa ponte, no Brasil, é cara — muito cara.

Motor 1: os juros mais altos do mundo

Aqui está o primeiro grande motor estrutural.

O Brasil convive há anos com uma das maiores taxas de juros reais do planeta.

Segundo o próprio Banco Central e comparativos internacionais do Fundo Monetário Internacional, o país frequentemente aparece entre os líderes globais em juros reais (juros descontada a inflação).

Mas o problema não está só na taxa básica (Selic).

Está no que chega na ponta:

  • Cartão de crédito rotativo: pode ultrapassar 400% ao ano
  • Cheque especial: acima de 130% ao ano
  • Crédito pessoal: frequentemente acima de 80% ao ano

Isso não é crédito — é mecanismo de drenagem de renda.

Porque uma dívida pequena vira grande muito rápido.

Exemplo simples:

  • Uma dívida de R$ 1.000 no rotativo pode dobrar em poucos meses
  • Sem aumento proporcional de renda

Resultado: bola de neve.

Motor 2: inflação onde mais dói

O segundo motor não aparece tanto nos debates técnicos, mas pesa direto no bolso.

A inflação no Brasil não afeta todo mundo igual.

Ela é concentrada em itens essenciais, especialmente para quem ganha menos:

  • alimentos
  • energia
  • gás
  • transporte

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que esses itens têm peso muito maior no orçamento das famílias de baixa renda.

Ou seja:

👉 Quem ganha menos sente mais inflação
👉 E precisa recorrer mais ao crédito para fechar o mês

É um ciclo.

E não adianta falar de planejamento financeiro quando a conta básica não fecha.

Motor 3: crédito fácil — e predatório

O terceiro motor fecha o ciclo: o tipo de crédito disponível.

No Brasil, o acesso ao crédito cresceu — o que, em tese, é positivo.

Mas cresceu com um problema sério: a qualidade desse crédito.

Grande parte das linhas disponíveis são:

  • de curto prazo
  • com juros altos
  • sem avaliação adequada de capacidade de pagamento

E muitas vezes direcionadas justamente para quem tem menor renda e maior vulnerabilidade.

Exemplos clássicos:

  • rotativo do cartão
  • cheque especial
  • consignado com margem estourada
  • fintechs com crédito instantâneo e taxas elevadas

Isso cria uma lógica perigosa:

👉 O crédito deixa de ser ferramenta de desenvolvimento
👉 E passa a ser ferramenta de sobrevivência

E sobrevivência financiada a juros altos vira armadilha.

Onde entra o Estado — e onde ele falha

Aqui está o ponto mais sensível — e mais importante.

Em qualquer economia organizada, o mercado financeiro não opera sozinho.

Ele é regulado.

E essa regulação tem um papel claro:
proteger o consumidor de assimetrias de informação e abuso de poder econômico.

No Brasil, essa proteção ainda é limitada.

Sim, houve avanços:

  • teto do cheque especial
  • maior transparência no crédito
  • iniciativas de renegociação

Mas ainda estamos longe de enfrentar o problema estrutural.

Faltam medidas como:

  • controle efetivo de juros abusivos na ponta
  • regras mais rígidas para oferta de crédito
  • limites reais de comprometimento de renda
  • educação financeira integrada à regulação — não isolada

Porque educação financeira sem regulação é como ensinar alguém a nadar em mar revolto sem colete.

E os avanços recentes? Funcionaram?

É importante reconhecer: houve avanços nos últimos anos.

Políticas como:

  • ampliação do Bolsa Família
  • valorização do salário mínimo
  • retomada do emprego formal

tiveram impacto real.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do IBGE mostram melhora:

  • aumento da renda média
  • redução da extrema pobreza
  • recuperação do mercado de trabalho

Isso ajuda — e muito.

Mas não resolve o problema estrutural.

Por quê?

Porque estamos falando de duas camadas diferentes:

👉 Política social melhora renda
👉 Estrutura financeira define quanto dessa renda fica com as famílias

Se a renda sobe, mas o custo do crédito continua alto, a drenagem continua.

O erro da narrativa dominante

Agora voltamos ao começo.

Quando o debate público insiste em dizer que o problema é “falta de educação financeira”, ele faz duas coisas perigosas:

  1. Individualiza um problema coletivo
  2. Desvia o foco das soluções estruturais

Claro que educação financeira é importante.

Mas ela não resolve:

  • juros abusivos
  • inflação concentrada
  • crédito predatório

É como culpar o motorista por dirigir mal numa estrada cheia de buracos.

Pode até existir erro individual — mas o problema principal está na estrada.

O que precisa entrar na agenda agora

Se a gente quiser tratar o problema de verdade, o próximo passo é claro:

enfrentar a estrutura que produz o endividamento.

Isso passa por uma agenda consistente de política pública:

1. Regulação do crédito na ponta

Limites reais para taxas abusivas e maior controle sobre modalidades de alto risco.

2. Proteção de renda

Mecanismos que evitem comprometimento excessivo da renda das famílias.

3. Redesign do sistema de crédito

Expandir linhas mais baratas e sustentáveis, especialmente para baixa renda.

4. Integração com política social

Crédito não pode substituir renda — ele deve complementar, não sustentar.

5. Educação financeira com contexto

Ensinar sim, mas sem ignorar o ambiente em que as pessoas estão inseridas.

O ponto central que não dá mais para ignorar

O Brasil não é um país de pessoas “financeiramente irresponsáveis”.

É um país onde o sistema financeiro, combinado com renda ainda desigual, produz endividamento como resultado esperado.

Enquanto tratarmos isso como falha individual, vamos continuar enxugando gelo.

E o sistema que drena renda segue intacto.

Fechando direto ao ponto

Se tem uma frase que resume tudo, é essa:

👉 Não basta aumentar a renda — é preciso parar a drenagem.

Sem enfrentar juros, estrutura de crédito e regulação, qualquer avanço social vira paliativo.

E aí o ciclo se repete.

A gente melhora… e volta para o mesmo lugar.

Referências (formato ABNT)

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Economia Bancária. Brasília: BCB, 2025.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO COMÉRCIO (CNC). Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC). 2025.
IBGE. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Rio de Janeiro: IBGE, 2025.
IPEA. Boletim de Políticas Sociais. Brasília: IPEA, 2025.
SERASA EXPERIAN. Mapa da Inadimplência no Brasil. 2025.
FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). World Economic Outlook. 2025.

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