Sete Critérios Ambientais para Observar Antes do Segundo Turno

Por Allan Moreno Magri

Faltam poucos dias para o segundo turno das eleições de 2026.

No próximo domingo, 25 de outubro, milhões de brasileiros irão novamente às urnas para definir quem assumirá cargos de grande relevância nos próximos anos. À medida que a votação se aproxima, a campanha naturalmente ganha intensidade. Multiplicam-se discursos, vídeos, entrevistas, promessas e declarações, enquanto cresce também a disputa pela atenção do eleitor.

Em meio a esse volume de informações, distinguir proposta concreta de simples propaganda nem sempre é fácil.

Na área ambiental, essa tarefa pode ser ainda mais complexa. Expressões como sustentabilidade, economia verde, proteção ambiental e transição energética se tornaram recorrentes no debate público, mas nem sempre são acompanhadas de medidas capazes de demonstrar como esses objetivos serão colocados em prática.

Por essa razão, mais importante do que identificar uma boa frase em um discurso é avaliar compromissos concretos e verificar se existem condições reais para que eles sejam executados.

O Tribunal Superior Eleitoral disponibiliza os programas de governo registrados pelas candidaturas que participam do segundo turno. Esses documentos podem ser consultados pela população e permitem buscar propostas relacionadas a temas específicos.

Essa análise não precisa ser extensa nem excessivamente técnica.

Sete critérios já oferecem um bom ponto de partida.

1. Combate ao desmatamento

O primeiro aspecto a ser observado é a forma como cada candidatura pretende enfrentar o desmatamento ilegal e a degradação dos biomas brasileiros.

Dizer que a Amazônia precisa ser protegida é importante, mas, isoladamente, não é suficiente.

A questão central é compreender como essa proteção será realizada.

O programa prevê monitoramento por satélite? Há medidas específicas para combater garimpo ilegal e ocupações irregulares? Estão previstas ações de fiscalização em áreas de maior pressão? Existem propostas para recuperação de áreas degradadas? Haverá coordenação entre governo federal, estados e municípios?

Os dados disponíveis mostram que políticas públicas associadas a monitoramento e fiscalização podem gerar resultados concretos e verificáveis.

Informações divulgadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em outubro, apontam que o desmatamento na Amazônia alcançou 3.335 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026, o que representa uma redução de 41,8% em comparação com o período anterior.

No Cerrado, a área registrada foi de 5.516,69 km², correspondendo a uma queda de 23,8%.

Esses números reforçam um princípio essencial: políticas ambientais precisam produzir resultados que possam ser avaliados de maneira objetiva.

Por isso, o eleitor deve verificar se as propostas apresentadas estabelecem metas, prazos e indicadores capazes de demonstrar, ao longo do tempo, se aquilo que foi prometido está efetivamente sendo cumprido.

2. Adaptação a eventos climáticos extremos

Durante muitos anos, o debate climático esteve fortemente concentrado na necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Essa continua sendo uma tarefa indispensável.

Entretanto, outra questão ganhou caráter de urgência: como preparar o país para impactos climáticos que já fazem parte da realidade?

Enchentes, longos períodos de seca, ondas de calor, incêndios florestais e outros eventos extremos afetam diretamente as cidades, a produção agrícola, a saúde da população, a infraestrutura e a própria atividade econômica.

O Plano Clima 2024–2035 reconhece esse cenário e apresenta estratégias de adaptação voltadas a diferentes setores.

Nesse contexto, é importante verificar se os programas de governo contemplam medidas relacionadas à drenagem urbana, prevenção de enchentes e deslizamentos, fortalecimento da defesa civil, sistemas de alerta, segurança hídrica, arborização dos centros urbanos e construção de infraestruturas mais resistentes aos efeitos de eventos extremos.

A mudança climática já não pode ser tratada apenas como uma preocupação relacionada às próximas décadas.

Ela também exige planejamento, investimento e capacidade de resposta no presente.

3. Fiscalização e fortalecimento institucional

Uma legislação ambiental sem mecanismos adequados de fiscalização corre o risco de permanecer apenas no plano formal.

Por isso, outro ponto essencial é analisar o que as candidaturas propõem para instituições como Ibama, ICMBio, Funai e demais órgãos responsáveis pela gestão, fiscalização e proteção ambiental no país.

Esse debate não deve ser reduzido a uma oposição simplista entre aumentar ou diminuir a fiscalização.

A pergunta mais adequada é outra: de que forma é possível construir uma fiscalização eficiente?

Isso exige servidores preparados, recursos tecnológicos, integração entre bases de dados e instituições, presença efetiva nos territórios e procedimentos administrativos capazes de funcionar de forma ágil e segura.

Da mesma forma, produtores, empresas e cidadãos que atuam dentro da legalidade precisam encontrar normas compreensíveis e condições de segurança jurídica.

Um sistema ambiental consistente deve ser rigoroso no enfrentamento da ilegalidade e, ao mesmo tempo, previsível para quem cumpre as regras.

Esses dois objetivos não são contraditórios.

Ao contrário, precisam caminhar juntos.

4. Transição energética

O Brasil ocupa uma posição diferenciada no debate internacional sobre energia.

As fontes renováveis já possuem presença expressiva na matriz energética nacional, e o país reúne condições favoráveis para ampliar o uso de energia solar, eólica, biomassa, biocombustíveis e outras tecnologias de menor impacto ambiental.

No entanto, uma transição energética não se resume à substituição de uma fonte por outra.

Mudanças dessa natureza afetam empregos, regiões, setores econômicos, cadeias produtivas e comunidades que, durante décadas, estiveram associadas a determinadas atividades.

Por isso, é importante avaliar se a candidatura se limita a propor a expansão das fontes renováveis ou se também apresenta estratégias relacionadas a infraestrutura, armazenamento de energia, linhas de transmissão, inovação tecnológica, qualificação profissional e criação de novos empregos.

Uma transição que seja adequada do ponto de vista ambiental, mas conduzida sem planejamento social e econômico, pode gerar novos desequilíbrios.

O desafio consiste em transformar a matriz energética sem produzir processos de exclusão.

5. Povos indígenas e comunidades tradicionais

Não é possível pensar em uma política ambiental consistente para o Brasil sem considerar os povos indígenas e as comunidades tradicionais.

Essas populações mantêm uma relação histórica com seus territórios e acumulam, ao longo de gerações, conhecimentos relacionados às florestas, às águas, ao solo, à biodiversidade e ao uso sustentável dos recursos naturais.

Ao analisar os programas de governo, o eleitor pode observar se existem propostas voltadas à proteção territorial, ao enfrentamento das invasões, à gestão sustentável dos recursos, à participação dessas populações nos processos de decisão e ao desenvolvimento de atividades econômicas compatíveis com a conservação ambiental.

A questão não se limita ao reconhecimento de direitos.

É preciso compreender também que a proteção dos territórios e das comunidades tradicionais desempenha papel importante na conservação dos diferentes biomas brasileiros.

6. Ciência, dados e transparência

Existe uma pergunta simples que pode ser feita diante de praticamente qualquer proposta ambiental:

em quais dados ela está baseada?

O Brasil conta com instituições qualificadas para produzir informações sobre desmatamento, clima, emissões, recursos hídricos e diversos outros aspectos relacionados ao meio ambiente.

INPE, universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos e diferentes sistemas de monitoramento produzem dados capazes de orientar governos e sociedade na compreensão das mudanças que ocorrem no território brasileiro.

Políticas públicas de qualidade precisam utilizar esse conhecimento.

Entretanto, não basta produzir informação.

Também é necessário garantir que a sociedade tenha condições de acompanhar os resultados das políticas implementadas.

É nesse ponto que ciência e transparência se tornam inseparáveis.

Metas, indicadores, despesas públicas, licenças, resultados de fiscalização e demais informações ambientais precisam estar disponíveis de forma acessível e compreensível.

Um dado público que permanece escondido em uma planilha difícil de localizar ou interpretar cumpre apenas parcialmente sua função.

Transparência efetiva é aquela que possibilita ao cidadão compreender o que está sendo feito, quais recursos estão sendo utilizados e quais resultados estão sendo alcançados.

7. Metas, orçamento e capacidade de execução

Este talvez seja o critério capaz de conectar todos os anteriores.

Uma proposta pode parecer excelente no documento e, ainda assim, jamais se transformar em política pública.

Por isso, diante de qualquer promessa ambiental, vale fazer três perguntas básicas:

Qual é a meta?

Quanto vai custar?

Quem será responsável por executar?

Em seguida, uma quarta pergunta completa a análise:

Em quanto tempo?

Esse conjunto de questões ajuda a diferenciar intenções genéricas de propostas minimamente estruturadas.

Se a candidatura pretende recuperar determinada quantidade de hectares, ampliar a fiscalização, reduzir riscos de enchentes ou acelerar a participação de determinada fonte de energia, é razoável esperar alguma indicação sobre prazo, recursos disponíveis e responsabilidade institucional.

É nesse momento que orçamento e capacidade de gestão passam a ocupar uma posição central no debate ambiental.

Não existe política pública consistente sem condições reais de execução.

E a forma como o orçamento é distribuído revela, em grande medida, aquilo que efetivamente é tratado como prioridade.

No domingo, a escolha é do eleitor. Depois, começa a fiscalização.

Nenhum programa de governo será capaz de apresentar respostas completas para todos os desafios do país.

Também não é razoável esperar que um candidato detalhe, durante uma campanha eleitoral, cada aspecto de uma agenda ambiental complexa em um território com as dimensões e a diversidade do Brasil.

Ainda assim, é legítimo exigir compromissos claros e propostas que possam ser posteriormente acompanhadas.

Antes de votar, vale dedicar alguns minutos à leitura dos programas oficiais disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral e comparar as propostas apresentadas pelas candidaturas.

Essa análise, evidentemente, não precisa se limitar à pauta ambiental.

Economia, educação, saúde, segurança, infraestrutura e outros temas relevantes para cada eleitor também merecem atenção.

No campo ambiental, estes sete critérios podem funcionar como uma referência inicial:

desmatamento; adaptação climática; fiscalização; transição energética; povos e comunidades tradicionais; ciência e transparência; metas, orçamento e execução.

Depois da eleição, entretanto, a responsabilidade do cidadão não termina.

Será necessário recuperar as promessas feitas durante a campanha, acompanhar indicadores, observar a execução do orçamento público e cobrar resultados daqueles que forem eleitos.

A urna encerra uma etapa da disputa eleitoral.

Não encerra a democracia.


Allan Moreno Magri
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos | Fundação Verde Herbert Daniel
Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança
Membro de comitês executivos ABNT/ISO nas áreas de Meio Ambiente, Auditoria Ambiental, Gases de Efeito Estufa, Recursos Hídricos, Resíduos, Governança e ESG

LinkedIn: linkedin.com/in/allanmagri-esg

Fontes e referências

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Plano Nacional sobre Mudança do Clima — Plano Clima 2024–2035. Brasília: MMA, 2026.

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. AdaptaCidades. Brasília: MMA, 2026.

BRASIL. Ministério dos Povos Indígenas. Políticas de justiça climática e adaptação em territórios indígenas. Brasília: MPI, 2026.

FUNDAÇÃO NACIONAL DOS POVOS INDÍGENAS (FUNAI). Povos indígenas, territórios e proteção ambiental. Brasília: Funai, 2026.

INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Brasil alcança menores taxas de desmatamento da série histórica na Amazônia e no Cerrado. São José dos Campos: INPE, 16 out. 2026.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Planos de governo dos candidatos — Eleições 2026 — Segundo Turno. Brasília: TSE, 2026.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Calendário Eleitoral — Eleições 2026. Brasília: TSE, 2026.

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