Avanços Ambientais do Brasil: um Panorama dos Últimos Anos

Por Allan Moreno MagriEspecialista em ESG, Sustentabilidade e Governança | Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos | Fundação Verde Herbert Daniel

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Discutir política ambiental no Brasil é terreno minado. Ou se comemora todo dado positivo como se o problema estivesse resolvido, ou se despreza qualquer avanço como maquiagem. As duas posturas empobrecem o debate.

Prefiro julgar política pública pelo que ela entrega, sustenta e consegue institucionalizar. E os números ambientais dos últimos anos entregam coisas que merecem ser ditas com todas as letras — sem deixar de cobrar o que ainda falta.

Comecemos pelo desmatamento, que é onde os dados mais chamam atenção.

Segundo o Prodes, do INPE, o desmatamento na Amazônia caiu para 5.796 km² no ciclo de 2025 — uma queda acumulada de cerca de 50% frente a 2022. No Cerrado, a redução no mesmo período foi de 32,3%. Não é número qualquer: os dois biomas concentram boa parte da biodiversidade brasileira e sustentam a regulação climática e a segurança hídrica do país.

O retrato nacional confirma a tendência. O Relatório Anual do Desmatamento no Brasil de 2025, do MapBiomas Alerta, registrou 984.794 hectares de vegetação nativa desmatados, queda de 20,6% em relação a 2024. É a primeira vez, desde que a série começou em 2019, que o país fica abaixo de um milhão de hectares desmatados em um único ano.

Dito isso, quase um milhão de hectares continua sendo muito. Entre 2019 e 2025, o Brasil perdeu 10,9 milhões de hectares de vegetação nativa. E o Cerrado segue como o ponto crítico do mapa: sozinho, respondeu por cerca de 540 mil hectares desmatados em 2025, mais da metade de tudo que se perdeu no país naquele ano.

Na Mata Atlântica, o resultado impressiona pela magnitude da queda. Dados da Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o INPE mostram supressão de florestas maduras caindo 40% em 2025, de 14.366 para 8.668 hectares. É o menor número já registrado pelo Atlas dos Remanescentes Florestais em quatro décadas de monitoramento.

Menos desmatamento também significa menos carbono na atmosfera

Redução de desmatamento não é só uma métrica de árvores preservadas. Ela conversa diretamente com a política climática do país.

A queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, em comparação com 2022, representou aproximadamente 733,9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em emissões evitadas. Para efeito de comparação, esse volume equivale às emissões anuais somadas de França e Espanha em 2022.

Controlar o desmatamento continua sendo a alavanca climática mais rápida que o Brasil tem à disposição. Descarbonizar indústria, transporte e matriz energética é indispensável — mas leva décadas. Manter floresta em pé produz resultado em escala e em pouco tempo, e é isso que os números acima demonstram.

Conservação também precisa chegar a quem vive no território

Fiscalização importa, mas comando e controle sozinho não segura floresta em pé. Quem vive no território precisa ter razão econômica para conservar.

Foi por isso que a retomada do Programa Bolsa Verde, em 2023, chamou minha atenção. O programa liga transferência de renda à conservação, atendendo famílias vulneráveis em áreas prioritárias de preservação. Até o fim de 2025, cerca de 84 mil famílias haviam sido beneficiadas, com pagamentos trimestrais de R$ 600.

A lógica é direta: quem mantém a floresta de pé presta um serviço ambiental à sociedade, e esse serviço precisa ser remunerado. Colocar isso em prática aproxima proteção ambiental de redução da pobreza — coisas que, no discurso público, muitas vezes andam separadas.

Outra mudança institucional relevante veio em 2024, com a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, instituída pela Lei nº 14.944. A lei estruturou uma política permanente de prevenção e gestão de incêndios florestais, articulando União, estados, municípios, sociedade civil e setor privado, e reconhecendo formalmente o manejo tradicional do fogo por comunidades locais.

Isso importa porque secas mais longas e temperaturas mais altas aumentam o risco de grandes incêndios ano após ano. Apagar fogo depois que ele se espalhou vai continuar sendo necessário, mas prevenção, manejo territorial e brigadas capacitadas precisam ganhar peso — e orçamento — na equação.

De Belém para o mundo: o Brasil depois da COP30

Em novembro de 2025, o Brasil sediou em Belém a COP30 da Convenção do Clima. Mais do que hospedar uma conferência, o país colocou a Amazônia no centro físico e político das negociações climáticas globais.

A conferência fechou com 56 decisões adotadas por consenso, cobrindo transição justa, adaptação, financiamento climático, tecnologia, gênero e participação de povos indígenas e comunidades locais. Parte dessas decisões compõe o chamado Pacote de Belém, voltado a acelerar a implementação do Acordo de Paris.

Sediar a COP30 trouxe visibilidade ao Brasil, mas também elevou a régua. Liderança climática não se sustenta em discurso de plenário. Ela se prova em orçamento, fiscalização, inovação e financiamento — e na melhoria de vida de quem está na linha de frente da conservação.

Avançar significa não voltar atrás

Os números mostram que política pública muda trajetória ambiental. Menos desmatamento na Amazônia, no Cerrado e na Mata Atlântica, retomada de programas socioambientais, uma política nacional para o fogo e a COP30 em Belém formam um conjunto de avanços real, mensurável e que merece ser reconhecido.

Isso não é motivo para relaxar.

O Brasil ainda perde centenas de milhares de hectares de vegetação nativa por ano. O Cerrado segue pressionado. Eventos climáticos extremos são cada vez mais frequentes e atingem primeiro as populações mais vulneráveis. Municípios precisam de mais capacidade de adaptação, e a transição para uma economia de baixo carbono exige investimento de longo prazo, segurança regulatória e um setor produtivo engajado — não apenas discursivamente.

Falta também garantir que esses resultados não dependam de um único governo ou de um ciclo eleitoral. Instituição forte é justamente aquela que transforma boa iniciativa em política de Estado, blindada de descontinuidade.

O Brasil avançou. Os dados também mostram o tamanho do caminho que falta. Sustentar essa trajetória vai depender de fiscalização, ciência, financiamento, governança e participação social contínuos. No fim, talvez o maior indicador de sucesso na agenda ambiental não seja quanto se avança em poucos anos, mas se as instituições construídas são fortes o suficiente para impedir que o país perca de novo o que levou décadas para proteger.

Fontes consultadas

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Relatório de Gestão 2025. Brasília: MMA, 2026.

BRASIL. Lei nº 14.944, de 31 de julho de 2024. Institui a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo.

MAPBIOMAS. Relatório Anual do Desmatamento no Brasil – RAD 2025. MapBiomas Alerta, 2026.

FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA; INPE. Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica. Resultados divulgados em 2026.

INPE. Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite – PRODES. Dados referentes a 2025.

UNFCCC. Outcomes of the Belém Climate Change Conference – COP30. United Nations Framework Convention on Climate Change, 2025-2026.

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