Allan Moreno Magri
Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos – Fundação Verde Herbert Daniel
Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança
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Existe uma verdade que a gente precisa encarar sem rodeios: a crise climática já não é mais um problema do futuro. Ela está acontecendo agora — e, no Brasil, ela não afeta todo mundo da mesma forma.
Quando a gente olha com atenção para o que vem acontecendo nos últimos anos, o padrão fica claro. Enchentes no Sul, deslizamentos no Sudeste, secas cada vez mais longas no Nordeste, incêndios no Centro-Oeste e na Amazônia. Não são eventos isolados. Não são “fatalidades”. Existe uma lógica por trás — e ela tem tudo a ver com desigualdade.
A crise climática, no fundo, também é uma crise social.
O impacto não é igual — e nunca foi
Vamos imaginar duas realidades.
De um lado, uma família que vive em uma área estruturada: rua asfaltada, drenagem adequada, acesso a serviços, algum nível de proteção financeira. Se uma enchente acontece, o impacto vem — claro que vem —, mas existe uma chance real de recuperação.
Agora, do outro lado, pense em quem vive em área de risco, em ocupações informais, sem saneamento básico, muitas vezes sem qualquer tipo de proteção social. Quando o desastre chega, ele não leva só bens materiais — ele leva estabilidade, dignidade e, em muitos casos, qualquer perspectiva de recomeço.
Essa diferença não é coincidência. É resultado de como o nosso país foi estruturado ao longo do tempo.
Segundo estudos do IPCC, os impactos das mudanças climáticas são mais intensos justamente sobre populações mais vulneráveis. No Brasil, isso se conecta diretamente com desigualdades históricas — de renda, de território e também raciais.
Dados do IBGE reforçam esse ponto: a população negra e de baixa renda está mais exposta a áreas com maior risco ambiental e infraestrutura precária. Ou seja, quem menos contribuiu para a crise climática é quem mais sofre com ela.
Se isso não levanta um alerta, deveria.
Justiça climática: mais do que um conceito bonito
É aqui que entra um termo que vem ganhando força — e que precisa sair do discurso e ir para a prática: justiça climática.
Na essência, estamos falando de algo simples de entender: não dá para tratar a crise climática apenas como um problema ambiental. Ela é, ao mesmo tempo, social, econômica e política.
Falar de sustentabilidade hoje sem falar de equidade é ignorar metade do problema.
E mais do que isso: é comprometer qualquer solução.
Mitigação é importante — mas adaptação salva vidas
Nos últimos anos, o Brasil avançou em alguns pontos importantes. A pauta de mitigação ganhou espaço: redução de emissões, matriz energética mais limpa, mercado de carbono, bioeconomia.
Tudo isso é fundamental.
Mas existe um ponto que ainda está muito aquém do que deveria: adaptação.
E aqui vale ser direto: adaptação não é plano B. É prioridade.
Enquanto a mitigação olha para o futuro, a adaptação lida com o presente. É o que protege vidas agora.
Estamos falando de coisas como:
- sistemas de alerta precoce
- infraestrutura urbana resiliente
- planejamento territorial inteligente
- recuperação de áreas degradadas
- proteção de recursos hídricos
Isso não é “agenda ambiental sofisticada”. Isso é política pública básica para um país que já sente, no dia a dia, os efeitos da mudança do clima.
O problema? Essas soluções ainda não chegam onde mais precisam.
Quem está ficando para trás?
Existe uma tendência clara — e preocupante.
Os investimentos em infraestrutura e adaptação muitas vezes ficam concentrados em áreas com maior visibilidade política ou retorno econômico mais imediato. Enquanto isso, comunidades periféricas, populações tradicionais e territórios rurais continuam expostos.
E aí vem a pergunta que realmente importa:
Quem está pagando a conta da crise climática no Brasil?
Não são os grandes emissores históricos.
Não são os setores que mais lucraram com modelos econômicos predatórios.
Quem paga essa conta, hoje, é a população mais vulnerável.
Paga com perda de renda.
Paga com perda de moradia.
Paga com impacto na saúde.
E, em muitos casos, paga com a própria vida.
ESG sem justiça social não se sustenta
Para quem trabalha com ESG — e aqui entra uma reflexão importante — esse é um ponto central.
Durante muito tempo, o debate ambiental ficou muito focado no “E” (Environmental), com avanços relevantes, mas muitas vezes desconectado do “S” (Social).
Só que, na prática, eles são inseparáveis.
Não existe agenda ambiental sólida sem olhar para desigualdade.
Não existe transição sustentável sem inclusão.
E não existe governança responsável ignorando quem mais sofre os impactos.
Empresas, investidores e gestores públicos precisam entender isso de forma estratégica — não apenas reputacional.
Porque ignorar a dimensão social da crise climática não é só injusto. É ineficiente.
Transição ecológica: repetir o passado ou corrigir a rota?
O Brasil tem uma oportunidade rara nas mãos.
Poucos países têm:
- uma matriz energética relativamente limpa
- uma biodiversidade tão rica
- um potencial tão grande em bioeconomia
Isso nos coloca em uma posição privilegiada no cenário global.
Mas existe um risco real: repetir padrões antigos.
Historicamente, grandes ciclos econômicos no Brasil vieram acompanhados de concentração de renda e exclusão social. A transição ecológica pode seguir esse mesmo caminho — ou pode ser diferente.
É aqui que entra o conceito de transição justa.
Transição justa significa garantir que a mudança para uma economia de baixo carbono não deixe ninguém para trás.
Na prática, isso envolve:
- proteger trabalhadores em setores impactados
- incluir comunidades vulneráveis nas novas cadeias produtivas
- gerar oportunidades onde hoje existe exclusão
- distribuir melhor os benefícios dessa transformação
Não é só sobre crescer “verde”. É sobre crescer melhor.
Desenvolvimento sustentável de verdade
Estudos do IPEA mostram que políticas que integram inclusão social e sustentabilidade têm maior impacto no desenvolvimento de longo prazo.
E isso faz todo sentido.
Quando você reduz vulnerabilidade, você aumenta resiliência.
Quando você inclui mais pessoas, você fortalece a economia.
Quando você investe em equidade, você reduz riscos sistêmicos.
Além disso, iniciativas apoiadas por instituições como o BNDES já demonstram que é possível alinhar geração de renda, conservação ambiental e desenvolvimento local.
O problema não é falta de solução.
É escala e prioridade.
Liderança global exige coerência
O Brasil costuma aparecer bem nos discursos internacionais sobre clima — e, de fato, temos muitos ativos relevantes.
Mas liderança não se constrói só com narrativa.
Se quisermos ocupar um papel de protagonismo real, precisamos alinhar discurso e prática.
E isso passa, necessariamente, por colocar a justiça climática no centro das decisões.
Significa:
- planejar cidades pensando em quem mais precisa
- direcionar investimentos com critérios sociais claros
- fortalecer políticas de adaptação
- ouvir comunidades locais como protagonistas — não apenas como beneficiárias
No fim, a pergunta é simples
A crise climática já chegou. Isso não está mais em debate.
O que ainda está em aberto é como vamos responder a ela.
E, no fundo, tudo se resume a uma escolha:
Vamos usar esse momento para repetir desigualdades — agora agravadas pelo clima?
Ou vamos aproveitar essa transição para construir um país mais justo, mais resiliente e mais preparado para o futuro?
Porque a forma como a gente responde a essa crise não define só políticas públicas.
Define o tipo de país que queremos ser.
Referências (formato ABNT):
IPCC. Climate Change 2023: Synthesis Report. Geneva: Intergovernmental Panel on Climate Change, 2023.
IBGE. Síntese de Indicadores Sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
IPEA. Mudanças climáticas e desigualdades sociais no Brasil. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2022.
BNDES. Relatório Anual 2023. Rio de Janeiro: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, 2024.