Juventude Negra Viva: por que falar de trabalho também é falar de vida

Por Allan Moreno Magri

Quando se discute violência contra a juventude negra no Brasil, o debate costuma se concentrar na segurança pública: índices de homicídio, atuação policial, avanço do crime organizado. São temas relevantes, mas contam só parte da história. Existe um fator que atravessa quase todos esses problemas, que é a dificuldade de milhões de jovens negros de acessar trabalho digno, renda estável e perspectiva de futuro. Falar de emprego, qualificação e inclusão produtiva não é reduzir uma questão complexa ao aspecto econômico, é reconhecer que trabalho, educação, proteção social e segurança caminham juntos.

Os números confirmam essa realidade. No quarto trimestre de 2025, segundo o IBGE, a taxa de desocupação entre pretos ficou em 6,1% e entre pardos em 5,9%, contra 4,0% entre brancos, mesmo com o país no menor patamar de desemprego da série histórica. Entre jovens negras de 14 a 29 anos, a taxa chegou a 16% em 2024, mais de três vezes a registrada entre jovens homens brancos na mesma faixa etária. A informalidade agrava esse quadro: limita o acesso à proteção previdenciária e dificulta a construção de projetos de vida de longo prazo. Some-se a isso o fato de que muitos desses jovens vivem em territórios com serviços públicos insuficientes, escolas com infraestrutura precária, mobilidade limitada e escassez de vagas de aprendizagem, restringindo as chances de inserção no mercado formal. O resultado não é uma sucessão de dificuldades individuais, é o acúmulo de desigualdades que se arrastam há décadas.

O Atlas da Violência, publicado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, confirma esse padrão do lado da segurança pública. Na edição mais recente, com dados de 2024, homens negros têm vitimização por homicídio 1,7 vez maior que a de homens não negros na mesma faixa etária, e mulheres negras têm taxa de homicídio 66,7% superior à de mulheres não negras. É um padrão que se repete ano após ano e revela algo estrutural, não uma questão de escolhas individuais ou circunstâncias isoladas.

Foi essa sobreposição entre vulnerabilidade econômica, exclusão social e maior exposição à violência que levou o Governo Federal a lançar o Plano Juventude Negra Viva, reunindo 18 ministérios em torno de ações de educação, cultura, saúde, segurança cidadã e inclusão produtiva, com mais de R$ 665 milhões previstos e 217 ações pactuadas. Entre os eixos está a ampliação de oportunidades de trabalho e renda, com iniciativas como cotas nos programas Jovem Aprendiz e Primeiro Emprego e uma rede unificada de estágios nos municípios. A lógica é direta: ampliar perspectivas reduz vulnerabilidade. Quando um jovem encontra portas abertas para estudar, trabalhar e empreender, cresce sua autonomia e diminui sua exposição a ambientes marcados pela violência.

Nenhum programa público resolve sozinho um problema construído ao longo de séculos, e a efetividade dessas iniciativas depende de continuidade administrativa, acompanhamento de indicadores e participação da sociedade civil. Depende também do setor privado, que tem papel direto na promoção da diversidade, na ampliação de programas de aprendizagem e em processos seletivos mais inclusivos. Essas medidas não são apenas responsabilidade social corporativa: ampliam o acesso a talentos historicamente invisibilizados e fortalecem a competitividade das próprias organizações. A economia como um todo ganha quando mais pessoas participam plenamente do mercado de trabalho, porque maior renda significa mais consumo, maior arrecadação e menos custo social associado à violência e à exclusão.

Há ainda um aspecto pouco discutido, que é a justiça restaurativa. O debate público costuma privilegiar respostas exclusivamente punitivas, mas experiências nacionais e internacionais mostram que prevenção, mediação de conflitos e acompanhamento de jovens em situação de risco reduzem a reincidência e ajudam a reconstruir trajetórias interrompidas pela violência, sem que isso signifique abrir mão da responsabilização de quem comete crimes. Trata-se de reconhecer que prevenir sai mais barato, para toda a sociedade, do que agir depois que o dano já ocorreu.

A Constituição Federal estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à juventude direitos como educação, profissionalização, cultura e convivência comunitária, e esses direitos não existem isolados: quando um falha, os demais tendem a ser comprometidos junto. Garantir oportunidades de inserção produtiva não elimina o racismo estrutural nem resolve todas as desigualdades do país, mas reduz barreiras concretas que alimentam ciclos persistentes de exclusão, sem negar a capacidade de escolha ou a responsabilidade individual de cada um. O que está em jogo é reconhecer que políticas públicas eficazes precisam enfrentar os obstáculos que impedem milhões de brasileiros de competir em condições minimamente equivalentes.

O Brasil já mostrou, em diferentes momentos, que consegue avançar quando combina crescimento econômico, ampliação de direitos e fortalecimento institucional. A proteção da juventude negra passa pelo mesmo caminho: educação de qualidade, qualificação profissional, geração de emprego e políticas avaliadas com base em evidência, não em discurso. No fim, isso não é só combater estatística. É gestão pública fazendo o que deveria fazer: transformar diagnóstico em resultado e política em vida concreta.

Fontes

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). PNAD Contínua, 4º trimestre de 2025.

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Atlas da Violência 2026 (dados de 2024).

Nossa Causa / DIEESE. Estudo sobre desemprego e informalidade entre jovens negras, PNAD Contínua/IBGE, 2024.

Ministério da Igualdade Racial e Secretaria-Geral da Presidência da República. Plano Juventude Negra Viva (Decreto nº 11.444/2023).

Organização Internacional do Trabalho (OIT). Parceria com o eixo de trabalho, emprego e renda do Plano Juventude Negra Viva.

Allan Moreno Magri

Gerente Administrativo-Financeiro e Coordenador de Projetos – FVHD

Especialista em ESG, Sustentabilidade e Governança

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